Se tem algo que os amantes de gastronomia gostam tanto quanto ou mais do que a própria cozinha, são os livros que falam sobre o tema ou trazem receitas e modos de fazer pratos clássicos ou cotidianos. Como o dia 23 de abril é o Dia do Livro (veja mais no fim da coluna), Pitangas nesta semana vai falar sobre um dos tantos livros que podem despertar o interesse dos amantes da boa mesa.
Foi visitando livrarias e pesquisando esse segmento sempre muito colorido e recheado de novidades que encontrei o livro de Marilena Chauí, nem tão novo assim, mas provavelmente desconhecido do público acostumado a ver os livros dessa autora nas estantes de filosofia. O livro intitulado “Professoras na Cozinha” foi escrito pela filósofa e sua mãe, Laura Chauí, professora do ensino fundamental, e lançado em 2011 pela editora Senac, de São Paulo.
Em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, na ocasião do lançamento, Chauí, a filósofa, explicou que o livro foi pensado para gente jovem inexperiente aflita. “Antes de escrevê-lo, fizemos perguntas para gente mais jovem (vício de pesquisador…) “que estuda e/ou trabalha, indagando quais os problemas maiores com as refeições e o que gostariam de saber”. A partir das respostas estruturaram o livro, que contém cinco capítulos, além de uma apresentação aos leitores, mais referências bibliográficas, índice de receitas e índice geral.
Mais do que atual para a maioria dos jovens que se vêm diante da impensável tarefa de ter que entrar na cozinha e preparar algo para comer, depois de um dia inteiro de trabalho fora, o livro é antes de tudo didático e procurar explicar o passo a passo desse grande desafio.
Um livro de receitas nos moldes da academia, começa com epígrafe de Clarice Lispector – ‘Atualidade do ovo e da galinha’, em “A descoberta do mundo”, seguido de versos de Shakespeare, extraído do canto das feiticeiras, do “Macbeth”. Com tais versos, mãe e filha introduzem o capítulo no qual desvendam a linguagem da cozinha: o que é, para que serve, o que é indispensável, quais são os principais ingredientes e as definições essenciais de verbos específicos da cozinha como o próprio “cozinhar”, seguido de assar, fritar… e de um glossário de termos a eles ligados como: banho-maria, aromatizar, al dente, buquê garni… vocabulário mínimo para a interpretação de qualquer receita, por mais simples que seja.
Ainda neste capítulo de “iniciação à arte da cozinha”, as autoras e suas colaboradoras, explicam o uso de medidas corretas e suas equivalências, como usar temperos, o que é uma refeição balanceada e que vitaminas podem ser encontradas nos variados tipos de alimentos, das carnes às frutas. Como o propósito é de oferecer informação prática para quem não tem muito tempo, a linguagem é direta e clara, em alguns momentos, esquematizada.
O capítulo segundo é dedicado à escolha, ao preparo e à conservação de alimentos. Chauí ensina a escolher o produto, indicando a cor e a textura que devem ter quando são frescos e adequados para o consumo. De forma didática, apresenta em colunas – isto sim e isto não – como a iniciante de cozinha deve se comportar no momento da compra de uma verdura ou de um legume, por exemplo. Seguem, dicas de preparo para se obter um pepino não amargo ou um milho cozido bem macio. Tudo com um trabalho gráfico que destaca dicas especiais e ilustrações elucidativas, como as que explicam os variados tipos de massa.
O livro atende ao propósito de responder todas as possíveis dúvidas de quem se inicia na arte da cozinha, ainda que seja a trivial, aquela feita nos intervalos cada vez mais curtos da vida moderna. Tem explicações para tudo: tipos de queijos, variedade de bebidas e em que momento devem ser servidas, ou ainda dicas de efeitos benéficos à saúde de alguns alimentos. As autoras ensinam a fritar um bife, deixando-o dourado e suculento, contam segredos de um bolo fofinho para o café da tarde, ensinam a preparar legumes a vapor.
No quinto e último capítulo, supondo terem bem formado seus leitores, dão dicas imperdíveis para “aquelas ocasiões especiais”, do cuidado na arrumação da mesa ao cálculo das quantidades para cada tipo de festa.
Como não poderia deixar de ser, encerram o livro com seis indicações bibliográficas para aqueles alunos que sabem ir além do livro e prolongar infinitamente a pesquisa e apresentam um índice das mais de 100 receitas reunidas na obra, entre as dicas e orientações tão bem sistematizadas.
Chauí define seu livro como uma espécie de “Dona Benta”, clássico livro brasileiro de receitas publicado pela Companhia Editora Nacional, com pitadas de economia doméstica e muito mais útil que um manual de receitas.
Na entrevista concedida, a filósofa conclui citando Espinosa, que na sua obra “Ética” diz: “por certo, só uma feroz e triste superstição nos proíbe de ter prazeres. Pois o que é mais conveniente do que saciar a fome e a sede ou expulsar a melancolia? Portanto, usar as coisas e deleitar-se nelas tanto quanto possível é próprio do sábio.”
O propósito do livro, como escrevem as autoras aos leitores, “não é só facilitar o cotidiano, mas também torná-lo agradável, elegante e prazeroso.” Tão indispensável aos amantes da gastronomia, como os outros livros de Chauí para os amantes da Filosofia.
Dia do Livro
Escolhido como Dia Mundial do Livro pelas Organização das Nações Unidas para a Educação, a ciência e a Cultura (Unesco), o 23 de abril celebra o livro e incentiva a leitura. A data é simbólica e tem origem na história da literatura mundial. Foi no dia 23 de abril de 1616 que morreram três grandes escritores: o inglês William Shakespeare, o espanhol Miguel de Cervantes e o peruano Inca Garcilaso de La Vega.

