Um país que despreza professor não tem como dar certo

Ratinho Júnior não está sozinho quando agride e despreza as dezenas de milhares professores da educação pública

Existem duas coisas que vamos todos ouvir na campanha eleitoral deste ano. E em todas campanhas eleitorais brasileiras. Um: que a educação é fundamental. Dois: que as crianças são o futuro do país. No entanto, esse mesmo discurso convive com um terceiro que infelizmente não é novo e é aceito por boa parte da população: o que despreza professores. A prova disso é que o governador Ratinho Júnior acusou professores de espalharem “fake news” e promover baderna, além de ter usado a estrutura do governo para atacar os docentes via o envio em massa de mensagens apócrifas para pais de alunos das escolas estaduais. E não houve reação relevante nenhuma exceto por parlamentares da oposição e pelo sindicato da categoria.

Ratinho, porém, não está sozinho quando despreza professores. Na realidade, é uma tradição brasileira agredir aqueles que são o principal pilar da educação nacional. Em 1989 Fernando Collor de Mello se elegeu com um forte discurso contra os “marajás” do serviço público. Quem eram os marajás? Juízes e promotores cujos salários rivalizam com os de governadores e prefeitos? Não, professores. Nós somos um país que chama pedagogas de pedabobas. Que considera ser professor ser fracassado. E apesar de serem fundamentais, professores são excluídos de toda e qualquer discussão de projeto para o setor. O da terceirização foi assim, assim como todos os demais projetos relevantes da área do governo Ratinho Júnior.

É como se a resposta a epidemia de Covid-19 tivesse sido coordenada por administradores de empresas e advogados, e não profissionais de saúde. Como se reuníssemos psicólogos para projetar pontes e viadutos. No entanto o governo acha perfeitamente aceitável planejar o futuro das escolas do estado sem professores.

Para os governantes os professores são um problemão. Sabe por que? Matemática. Ou melhor, finanças. Explico: o orçamento da educação é o orçamento mais regulamentado da administração pública. Há critérios muito diretos e claros sobre como e quando os governantes precisam gastar. A legislação determina da quantidade de merenda para cada criança ao número de professores por aluno. E como a legislação determina uma quantidade decente de professores por alunos, a quantidade de professores contratados é enorme. No Paraná, a rede estadual tem 65 mil docentes contratados e uma folha anual de R$ 7 bilhões.

Esse é o dinheiro mais bem gasto de toda administração pública porque é quase impossível haver aí desvio ou corrupção. Se o professor foi contratado, ele vai receber diretamente o salário todos os meses, sem intermediários. Vai da conta do governo direto para a conta do professor. E meu-Deus-do-Céu se um professor contratado não aparecer na escola, não é mesmo? É uma situação bem diferente da saúde, cujo orçamento é igualmente vultoso, mas a terceirização é disseminada e boa parte dos recursos públicos passam por intermediários antes de chegar no bolso de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas etc.

Mas apesar de custarem caro, os professores não rendem boas fotos para as redes sociais e os programas eleitorais. Além disso, qualquer governante sabe que é difícil agradar a categoria porque, dada a quantidade de pessoas e o valor da folha, qualquer aumento na remuneração tem um impacto enorme no orçamento, mas pequeno no bolso dos docentes, que amargam décadas de perda de poder aquisitivo do salário. Um aumento de 1% na folha representa R$ 70 milhões. Para efeito de comparação, o orçamento de investimento da Educação no Paraná é de R$ 300 milhões. Claro, o caixa do Estado tem como bancar isso, mas o custo é o governador abrir mão de mais um pedaço do orçamento sobre o qual ele tem como interferir. Ou em bom português: é menos dinheiro para comprar penduricalho e fazer foto para as redes sociais.

Ser professor é um dos trabalhos mais difíceis que existe. Além da dificuldade do processo de ensino em si, todo professor lida com todo tipo de aflição humana em sala de aula. De crianças com fome a casos evidentes de abuso físico. Problemas de saúde mental, dificuldades de aprendizagem e até mesmo disputas de guarda entre pais divorciados. Já era ruim, mas piorou nos últimos anos com a campanha contra “ideologia” na escola. Tem pais agredindo professores por ensinarem o que está no currículo, como a Ditadura Militar, a escravidão ou conteúdos sobre aparelho reprodutor em ciências. Há professores sendo denunciados e submetidos a processos administrativos por usar camisetas com pessoas consideradas “de esquerda”, como a pintora mexicana Frida Khalo, o cantor brasileiro Renato Russo ou mesmo o ex-presidente americano Barack Obama ou acessórios como echarpes e lenços na cor vermelha.

Além de uma violência injustificada e e um atentado contra a educação, os ataques contra professores são também burrice. Qualquer um que acompanhe o setor sabe que há uma crise se aprofundando diariamente: a da falta de professores. Não estamos formando novos professores na velocidade suficiente para atender a demanda. Além disso, com a desvalorização da profissão não estamos atraindo profissionais de qualidade para o setor e quem opta pela área está escolhendo se formar em faculdades de qualidade duvidosa na modalidade EAD do que pelas universidades públicas por conta do custo. A única falta de reverter isso é valorizando a carreira através de uma política de melhoria da remuneração (o que o governo federal está fazendo com a implantação do piso do magistério, mas ainda de forma bastante incipiente) e de ações reais de valorização da categoria, como, por exemplo, a inclusão dos professores no planejamento de ações de governo.

O desprezo contra professores não é uma luta da direita contra a esquerda. É uma forma de promover o desmonte da educação pública e de reduzir o controle e a transparência na gestão dos recursos da área. Não serve a propósito nenhum além de aumentar o risco de desvio de dinheiro público e reduzir a autonomia das escolas e das comunidades. O resto é retórica violenta para desqualificar opositores. Resta saber se a população será sábia o suficiente para ver a verdade antes que seja tarde.

2 comentários em “Um país que despreza professor não tem como dar certo”

  1. “Meu caro governador, eu tenho medo, muito medo! Medo de tudo. Medo de falhar,de fracassar, decepcionar, fraquejar, deprimir até parar com tudo e ficar maluca!! Tenho medo de não me aposentar! De não suportar a carga de trabalho!! Medo de me tornar tão frágil diante de tantos ataques e desistir de tudo.Ah como eu tenho medo! As vezes enfrento dias difíceis, que me dão muito medo,medo de não aguentar. Enfrento tantas cobranças, tantas batalhas que o senhor nem imagina e que me causam medo. Mas sabe como eu administro esse medo? Da seguinte maneira, sei que são apenas medos, nada além disso. Não deixo as coisas parecerem maiores do que realmente são. Apesar dos medos, eu acredito que posso e é com essa força que acordo todos os dias e vou a luta!! Os desafios são muitos, a “Escola não esta numa caixinha” são muitas as variáveis. E tenho certeza que o senhor não tem conhecimento delas.Mas eu tenho, nós da categoria conhecemos os grandes obstáculos e desafios da nossa profissão. E mesmo com todo esse medo, temos força,temos garra e principalmente quanto maior o obstáculo, mais acreditamos que temos que ser invencíveis na superação. E de superação minha categoria entende.Afinal estamos sendo massacrados por políticos sem escrúpulos a um bom tempo. Superar é a palavra da vez em nossas vidas. Então, só pra deixar claro, não será uma falta , assédio moral ou até mesmo desconto em nossas folhas de pagamento que irá nos parar. Escola não é mercadoria. Ela é feita de gente,com gente e para gente. Nós estaremos na luta! Estaremos dando aula de cidadania! Estaremos mostrando para os nossos alunos que direitos se conquistam com luta!! Escola não se vende,se defende.Lutaremos como professoras💪💪

  2. Valnei Francisco de França

    O que me espanta é a apatia de uma população que envia todos os dias seus filhos para a Escola. O que será que ele pensa sobre qual será o futuro de seus filhos? Será que ele transfere para o Estado essa responsabilidade? Ou, ela não sabe que possuem força suficiente para contribuir influenciando diretamente na Escola? Existem Conselhos, mas qual a participação efetiva dos Pais nele? Qual a relação destes país entra a Educação de seus filhos e a Religião que os Pais professam?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Plural se reserva o direito de não publicar comentários de baixo calão, que agridam a honra das pessoas ou que não respeitem níveis mínimos de civilidade. Os comentários são moderados por pessoas e não são publicados imediatamente.

Rolar para cima