Ao longo da história e até os dias atuais, a invisibilidade vem varrendo vivências e histórias lésbicas para as periferias da luta pelo direito de ser quem se é e amar quem se ama. No Holocausto, não foi diferente: na Alemanha do início do século XX, ao contrário da masculina, a homossexualidade feminina era tolerada, mas no pior dos sentidos.
De 1933 a 1945, lésbicas foram silenciadas e perseguidas pelo regime nazista, que acreditava que as mulheres alemãs tinham a maternidade como função social a ser cumprida e, portanto, seu maior crime era recusar esse destino. Todavia, pela sua capacidade de dar à luz, eram consideradas “úteis”, mas tratadas como seres socialmente desajustados – e, por isso, eram chamadas de “associais” e receberam como símbolo o triângulo preto.
Atravessada pela misoginia, a lesbofobia teve, então, a invisibilidade como principal forma de violência perpetrada pelos nazistas. Eles não as consideravam seres politicamente relevantes e, assim, não entendiam a lesbianidade como uma ameaça. Sofriam maior risco de morte aquelas enfrentavam perseguição racial ou eram dissidentes políticas.
Uma visita especial
Ainda hoje, mulheres lésbicas lutam contra o silenciamento e a invisibilidade dentro e fora da comunidade LGBTQIA+. É por esta razão que o Dia da Visibilidade Lésbica, celebrado em 29 de agosto, é tão importante para a promoção de conscientização, debate e reivindicação. Neste ano, o Museu fez parte da programação mensal do Coletivo Cássia em homenagem à data, com uma visita especialmente pensada a partir das vivências lésbicas no Holocausto.
O Coletivo é um grupo interseccional de mulheres que amam mulheres, com o objetivo de promover representatividade, visibilidade, saúde e direitos, criando espaços de voz e acolhimento para mulheres lésbicas e bissexuais. Como um dos apoiadores do material Além do Silêncio, que conta narrativas LGBTQIA+ durante a Shoá, o grupo trouxe 45 mulheres ao nosso espaço para um encontro com roteiro pedagógico único. Durante a visita, histórias de resistência e de sobrevivência foram resgatadas e contadas, num esforço para tornar a história lésbica visível.
Resistência e visibilidade
As mulheres confinadas nos campos de concentração ou que se viam em rota de fuga, via de regra, estavam nessas situações por questão racial ou por perseguição política – e não unicamente por serem lésbicas.
Foi o caso de Erika Julia Hedwig Mann: uma produtora de teatro, dramaturga, jornalista e atriz alemã, nascida em Munique. Era conhecida pelo seu cabaré humorístico antifascista e sua companhia de teatro. Pouco depois da subida de Hitler ao poder, prevendo que sua vida estava em risco por suas peças que abertamente ridicularizavam nazistas, fugiu do país. Em 1935, chegou à Inglaterra – onde se casou com um amigo, também homossexual, para poder permanecer lá.

Apesar de consideradas politicamente irrelevantes, grande engano dos nazistas, não deixaram de ter participação relevante na resistência, como fez Frieda Belinfante. Nascida em Amsterdã e filha de pai judeu, tinha uma carreira promissora na música como a primeira mulher a reger uma orquestra profissional na Europa. Quando o partido nazista chegou ao poder, deixou sua profissão de lado para ingressar na resistência, encontrando esconderijos, falsificando documentos e ajudando a planejar um bombardeio para destruir os registros populacionais da cidade. Após a concretização do ataque, frente ao assassinato de seus colegas, começou a usar roupas consideradas masculinas para evitar ser descoberta – e, assim, conseguir escapar para a Suíça e, mais tarde, para os Estados Unidos, onde fundou sua própria orquestra.
Outras, entretanto, não tiveram o mesmo destino que Erika e Frieda. Em 1938, a Gestapo anunciou que condenados por homossexualidade poderiam ser encarcerados em campos de concentração. No caso das lésbicas, que não estavam incluídas na lei, a perseguição foi menos sistemática. Ainda assim, há registros de mulheres “associais” que foram confinadas.
Relatos
Luanna Mendieta, de 25 anos, teve seu primeiro contato com o Museu do Holocausto de Curitiba na visita com o Coletivo. “Minha primeira visita ao Museu foi bem potente, creio que não poderia ser diferente, como mulher lésbica e preta. Sentimentos sobre o Holocausto são sempre latentes”, comentou. Fazendo parte de ações e culminação de ideias dentro do grupo, ressalta que ter a vivência das mulheres lésbicas como recorte principal do evento foi essencial: “Foi muito importante para nos aproximar da memória que infelizmente é muito apagada da nossa existência. Nós existimos, e a Rafaela [mediadora] deixou claro na visita”.
Como mediadora da visita, tive uma experiência diferente das outras que já vivenciei em quase seis anos trabalhando no Museu. O processo como um todo foi emocionante, desde a formulação do roteiro e o aprendizado de novas histórias, até o contato com vivências nesse recorte tão específico e que, ainda que de forma muito diferente, fazem parte da minha vida como mulher lésbica. Traçar paralelos com o que vivemos hoje é um exercício que estamos constantemente fazendo e que sempre traz reflexões muito importantes.
Com grande procura e vagas esgotadas em poucas horas, a abertura de mais horários está sendo estudada em conjunto com o Coletivo Cássia e será divulgada nas redes sociais.


Que necessária essa coluna! É muito difícil achar material sobre a vivência lésbica durante o nazismo. Já li livros a respeito da importância das mulheres na resistência, mas nenhum abordava o assunto.
Que matéria deplorável…… Esse blog Plural é realmente “uma coisa”. Não a toa a Gazeta excomungou o Galindo para o ostracismo.
Caro anônimo, isso é uma coluna, que é diferente de matéria. E é escrita pelo Museu do Holocausto, uma instituição que temos orgulho de ter como colunista aqui no Plural. Obrigada pela audiência.