Contrariando bom senso e STF vereadores de Curitiba tentam legislar contra “linguagem neutra”

Supremo já declarou que ideia é inconstitucional, mas governo e vereadores insistem em governar a língua a golpes de lei

Existem projetos que são feitos para virar lei. E existem projetos que são feitos meramente para que o político tenha discurso – são propostas que todo mundo sabe que não têm como ir adiante, que vão representar uma perda de tempo e de dinheiro público, mas que são apresentados mesmo assim só para o sujeito dizer a seus eleitores que está fazendo alguma coisa.

Exemplo evidente são os projetos que tentam acabar com a linguagem neutra – proibindo por exemplo que se utilizem expressões como “alunes” no lugar de alunas e alunos. O Supremo Tribunal Federal já jogou no lixo uma lei aprovada em Rondônia que ia exatamente nesse caminho, e deixou claro que vai fazer o mesmo com outros que chegarem por lá.

Mas os espertinhos não se dão por vencidos e continuam tentando usar essa história para ganhar pontos com o eleitorado conservador. No Paraná, o governador Ratinho Jr. (PSD), um bolsonarista por convicção e conveniência, fez por um projeto do gênero aquilo que se recusou a fazer em benefício dos doentes que precisam de medicamentos à base de cannabis – sancionou a proposta aprovada na Assembleia, patrocinada entre outros por um coronel linha dura e por um pastor da Universal.

Linguagem neutra em Curitiba

Na Câmara de Curitiba, a ideia virou epidemia. Nori Seto (PP) já havia apresentado uma proposta com o curioso nome de Plano Municipal de Valorização da Língua Portuguesa. O projeto prevê, por exemplo, o incentivo “à difusão e ao bom uso da língua portuguesa”, assim como “ao estudo e à pesquisa sobre os modos normativos e populares de expressão oral e escrita do povo brasileiro, valorizando a expressão oral com feições curitibanas”.

O bolsonarista radical e inelegível Eder Borges (PP) fez o mesmo, mas retirou sua proposta dizendo que precisava repensar o caso. Depois, o vereador sugeriu a criação da campanha municipal Amigos do Vernáculo. Um de seus objetivos seria “prevenir o uso e [a] difusão da denominada ‘linguagem neutra, do ‘dialeto não binário’, ou de qualquer outra que descaracterize a norma culta da Língua Portuguesa”. O projeto, no entanto, foi anexado por semelhança à proposta de Nori Seto.

E agora o Pastor Marciano Alves (Solidariedade) entra no bonde com um projeto do mesmo gênero. Pior: já sabendo que o STF não deixar que a coisa vingue – os outros estavam afrontando apenas o bom sendo ao tentar governar a língua a golpes de lei, este afronta também a decisão do Supremo.

7 comentários em “Contrariando bom senso e STF vereadores de Curitiba tentam legislar contra “linguagem neutra””

  1. VALTER Luiz Abelardino da Silva

    Bem, temos aí também na língua portuguesa, o embate entre os conservadores e progressistas! Cada um com suas visões…vamos com cuidado para não gastarmos energias à toa, não apressarmos demais as regras que existem para ordenação e facilitação de nossas comunicações pessoais e institucionais e não termos ilusões de que a língua é imutável e isenta de pressões político culturais.
    As línguas que não se modificam são línguas mortas, garanto que o latim é imutável!
    As línguas são instrumentos, códigos formais (e informais) orais ou escritos de comunicação entre coletivos humanos num determinado tempo e espaço cultural, portanto não se pode recorrer a leis ou regras que “congelem” as formas e regras de expressão das línguas, as quais inevitavelmente sofrerão mudanças ao longo do tempo, tanto por influências internas, no próprio seio daqueles grupos que compartilham uma mesma língua, como influências externas. Sabe-se também que as línguas trazem no seu bojo as relações de poder, preconceitos e outras subjetividades inaparentes às nossas percepções rasas, mas quando estudamos suas origens descobrimos nelas outros significados diferentes dos atuais e nem sempre com boas conotações. Por exemplo: a palavra trabalho que nos dias de hoje contém todo um valor ético e moral associado a ao bem-estar, à realização pessoal e à produção de riquezas, etc, etc, etc… tem origem de uma palavra da idade média, tripalidus, associada a um instrumento de tortura dos seres humanos usados por tiranos (pelos carrascos de plantão), contra seus opositores.
    Obviamente que nossa língua usa muitos pronomes, substantivos, adjetivos, etc, etc no masculino por causa da cultura patriarcal, machista e outras palavras tanto no masculino quanto no feminino por outras razões. Se estamos passando, e de fato estamos, por uma fase de questionamentos de nossos usos e costumes onde estamos tentando construir igualdades e equivalências de gênero (entre outras). Entendo que é natural que se comece a questionar e flexionar a nossa língua de forma que não privilegie a cultura machista. O uso deste E neutralizando o O ou A, nos contextos atuais, é uma evolução natural da língua falada ou escrita, que acompanha todos os processos evolutivos de nossos usos e costumes atuais!
    Além disso não é uma modificação que, a priori, prejudique a clareza ou o entendimento de qualquer texto em qualquer nível da comunicação linguística; do contrário seria mais questionável e requereria mais cuidados!

  2. Não sou de direita e nem um pouco reacionário, mas classifico esse negócio de “linguagem neutra” como aberração inútil e irritante, que espanca a lingua portuguesa.
    Essa gente que vá arranjar um mato pra carpir, em vez de querer impor um modismo fútil, que ainda por cima só serve para alimentar o discurso da
    extrema direita.
    E acho que alguém devia dar um toque pra Janja, ela que largue mão de ficar se metendo até nisso.
    Em tempo: a imensa maioria das pessoas de bom senso com quem converso pensam da mesma forma.

  3. O bom jornalismo deve preservar a atual língua portuguesa, que tem um conteúdo bem mais rico do que outras línguas pelo mundo… Não vejo vantagem nessa ‘neutralidade’, é só um empobrecimento da língua e uma maior segregação da população que busca igualdade.
    Quem deveria ser neutro é o jornalismo, fornecer a notícia como ela é, não como ele quer que seja 😉

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