Pegue uma pesquisa de intenção de voto. Qualquer uma, não tem importância. Todo mundo sabe mais ou menos os resultados (mesmo os que fingem não acreditar em nada daquilo). Mas esqueça o número total de votos e vá para os recortes por grupo de eleitorado: isso talvez explique mais do que qualquer outra coisa o que está acontecendo no Brasil.
- Bolsonaro ganha entre os homens; Lula ganha entre as mulheres.
- Bolsonaro ganha entre os brancos; Lula ganha entre os negros.
- Bolsonaro ganha entre os ricos. Lula ganha entre os pobres.
- Bolsonaro ganha entre os de mais escolaridade. Lula ganha entre os que têm menos estudo.
- Bolsonaro ganha nos estados mais ricos. Lula ganha nos estados mais pobres.
Deu pra perceber um padrão? Sempre quem tem uma situação mais privilegiada está de um lado; quem está do lado que mais sofre e apanha, está do outro. A eleição é entre aqueles que sempre mandaram, que sempre tiveram mais, que sempre estiveram por cima, e aqueles que há anos, décadas, séculos, lutam para ter um pouco mais.
Mulheres que querem mais respeito. Negros que querem mais igualdade. Pobres que querem acesso a comida. Iletrados que querem educação e prosperidade. Gente que mora nos rincões mais afastados e que deseja finalmente estar no centro da atenção do poder público.
Ao longo das últimas décadas, desde a Constituição e principalmente desde 2002, com a eleição de Lula, algumas situações de injustiça no país começaram a ser reparadas. Não vivemos nenhuma revolução, mas as mulheres ganharam proteção sob a Maria da Penha; as domésticas passaram a ter carteira assinada; para desgosto de Paulo Guedes, o filho do porteiro pôde ir à Universidade; e sim, as pessoas conseguiram fazer um churrasquinho.
Em 2018 veio a grande revanche. Não é à toa que o escolhido para suceder o petismo foi um homem que se aborrece com qualquer tentativa de reparação histórica. A declaração de Bolsonaro de que democracia é para as maiorias, e que as minorias precisam ou se adaptar ou sumir, resume o espírito de sua eleição.
Bolsonaro foi eleito para voltar o país ao que era 40 ou 50 anos antes – foi ele mesmo quem disse. Devolver as mulheres à submissão, os negros à inferioridade, os trabalhadores a um salário que não é reajustado pela inflação.
Sob Bolsonaro, nordestinos voltam a ser “cabras da peste”, negros são medidos em arrobas e gays retornam à condição de anomalia que não deve ser tolerada.
No dia 30, vamos saber qual lado ganhou. Se o Brasil que quer voltar à ordem antiga, em que os mais fortes mandam e os outros obedecem, ou se retomaremos o caminho da justiça, da igualdade e da inclusão.


admiração enorme Galindo. gratidão por tudo e por tanto. Lula 13 por um pais mais digno
Que texto!!! Parabéns Galindo, excelente análise!
Eu estou do lado em que sempre esteve meu pai, Luiz Felipe, médico falecido em março: ao lado do PT de Lula, Dilma, Zé Dirceu, Gleisi, Haddad, Benedita e tantas outras grandes brasileiras. Depois de toda agonia que passamos ao longo do período das trevas da Lava Jato, votar em Lula mais uma vez teria sido uma das grandes emoções da vida dele.