Em nome de candidatura à Presidência, Ratinho agora diz não ser ideológico

Ratinho diz que o povo está cansado de extremismos, e que ideologia não enche barriga de ninguém. Por isso, ele é um "candidato sem ideologia" - um espécime inaudito na longa história da política humana

A entrevista do governador Ratinho Jr. (PSD) às páginas amarelas da Veja é uma clara tentativa de criar burburinho e lançar uma pré-candidatura à Presidência. Difícil saber de onde partiu a ideia. Se foi alguém da redação da Veja que teve a ideia, ou se foi o Palácio Iguaçu que ficou sussurrando no ouvido de alguém em São Paulo até conseguir o que queria.

O fato é que a entrevista ficou do jeito que o diabo gosta: nem pagando seria possível conseguir uma propaganda melhor. São três páginas na maior revista do país sem uma única pergunta difícil. Durante todo o tempo, os entrevistadores, sabe-se lá por que, não fazem uma única pergunta difícil para o governador, como seria costume (e quase obrigação) numa conversa desse gênero.

Ratinho fez a sua parte e deixou claro qual é o discurso que pretende usar daqui por diante: criticou Lula e se colocou como uma opção para quem não gosta do petista; por outro lado, jogou Bolsonaro aos leões. Depois de ter se pendurado no presidente por quatro anos e de ter se beneficiado de financiamentos de todos os tipos, disse que não concorda com o ex-presidente por ser “um radical”. Elogiou o governo, mas desancou quem governava.

Evidente: se Bolsonaro sobreviver politicamente, não existe candidatura de Ratinho, portanto o interesse agora é ser coveiro do ex-aliado.

Mas o discurso também passa por uma higienização daquilo que realmente é o governo paranaense. Ratinho diz que o povo está cansado de extremismos, e que ideologia não enche barriga de ninguém. Por isso, ele é um “candidato sem ideologia” – um espécime inaudito na longa história da política humana.

Sabe-se lá a quem Ratinho espera convencer com isso. Fora da redação da Veja e do grupo de zap dos comissionados dificilmente alguém vai repetir isso sem questionar minimamente o programa posto em marcha no Paraná.

Como governador, Ratinho militarizou escolas e foi a favor do Escola sem Partido; diminuiu a carga horária de disciplinas de Humanas e defendeu que escola de pobres tem que ensinar a gurizada para o mercado, e não para ter pensamento crítico; enfrentou sindicatos, aprovou o homeschooling e terceirizou a educação secundária. Ou seja: todo o programa da direita.

Na gestão, decidiu privatizar tudo. Vendeu no primeiro governo a Copel Telecom e no segundo está promovendo um verdadeiro feirão: até mesmo a veneranda Copel, de tantos serviços prestados ao estado, será “transformada em corporation”, uma tucanização do fim do Estado. Compagas, Ferroeste, até contratos de esgoto: nada escapa à fúria privatista de Ratinho.

Na política, não é preciso dizer mais nada: apoiou Bolsonaro do primeiro ao último dia, inclusive depois de o presidente ter sido partícipe das mortes de 700 mil brasileiros. Também se associou ao que existe de mais reacionário no estado: militares que defendem o “cancelamento de CPFs”, lavajatismo e pastores defensores de tristes retrocessos civilizatórios.

Para estar mais à direita, só falta Ratinho andar com um adesivo “Brasil, Ame-o ou Deixe-o no vidro do carro”. Mas olha que, se isso trouxer uns votinhos, pode bem ser que aconteça.

1 comentário em “Em nome de candidatura à Presidência, Ratinho agora diz não ser ideológico”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Plural se reserva o direito de não publicar comentários de baixo calão, que agridam a honra das pessoas ou que não respeitem níveis mínimos de civilidade. Os comentários são moderados por pessoas e não são publicados imediatamente.

Rolar para cima