Girls Rock Camp: a potência do coletivo

Projeto busca o fortalecimento da autoconfiança e das relações entre mulheres por meio da música

Parece uma missão impossível: aprender um instrumento em uma semana – sem ter base musical nenhuma –, compor uma música e apresentá-la ao público em um grande evento. Mas esta é apenas uma parte do trabalho desenvolvido com meninas entre 7 e 17 anos durante o Girls Rock Camp. Ao longo de sete dias, voluntárias e campistas passam por uma vivência similar ao de uma colônia de férias: sob orientação do grupo de mulheres, as meninas têm um cronograma recheado de atividades, de instruções musicais, até oficinas voltadas ao fortalecimento da autoconfiança das participantes. As atividades são lúdicas e abordam temas, como gênero e identidade, de forma leve e descontraída.

As meninas acabam envolvidas num debate importante para suas vidas. Afinal, mais do que aprender música, a experiência permite que olhem livremente para aspectos diversos, e pessoais, de suas próprias histórias.

“Uma pessoa segura de si e de todos os seus potenciais, que exercita diariamente a autoconfiança e a autoestima, e que valoriza a potência do trabalho coletivo” é a definição do que é ser mulher, nas palavras da publicitária e coordenadora do Girls Rock Camp Curitiba, Carla Del Valle. Não à toa: “coletivo” e “potencial” são a essência do trabalho realizado pelo grupo de mulheres voluntárias ao longo da construção do “Camp”.  

Evento independente funciona com base em uma rede de mulheres. Foto: Divulgação

A música acaba sendo pano de fundo para uma vivência diversa e mais ampla, que busca mostrar às campistas o potencial do trabalho coletivo e da troca entre mulheres. Enquanto têm aulas de canto, guitarra, baixo, bateria e teclado, as meninas aprendem a conviver com as próprias diferenças, e são convidadas a se expressarem por conta. “A gente quer se um lugar de acolhimento, em que todas as meninas e as voluntárias se sintam acolhidas para poderem falar e serem ouvidas”, explica a produtora cultural e coordenadora do Camp, Roberta Cibin. 

Originalmente, a ideia nasceu em Portland, no Oregon (EUA) em 2001, e desembarcou no Brasil em Sorocaba (SP), por volta de 2013. Um trabalho que Roberta acompanhou logo no início: “Várias amigas minhas participaram do Camp de Sorocaba, como instrutoras ou voluntárias. Então eu acompanhava o trabalho delas pelas redes sociais”, conta. Em 2017, a vontade de trazer “o Camp” para Curitiba falou mais alto, e Roberta começou a reunir amigas para os planos saírem do papel. A primeira edição curitibana aconteceria no ano seguinte: em janeiro de 2018, recebendo 38 campistas e 50 voluntárias.

Transformação

Aos 17 anos, essa é a segunda – e última edição – do Girls Rock Camp que Carla Louyse Soares dos Santos participa. Em 2019, Carla participou do evento por indicação da irmã mais velha, e escolheu a prática de voz: “Eu tinha participado de coral, mas não achava que ‘podia cantar sozinha’”, conta.

Campistas podem escolher entre aprender guitarra, baixo, teclado, voz ou bateria. Foto: Divulgação

 Hoje, a jovem é bolsista de canto em uma escola de artes. “Aqui no Camp você vai ouvir todos os dias que você é importante, que você precisa estar aqui, e que o que você faz é legal. Mesmo que só saiba uma nota, você sabe aquela nota”, conta sobre a experiência como campista. Para Carla, a lição mais valiosa foi entender que, enquanto mulher, pode ocupar qualquer espaço que queira. “O Camp acontece porque existem mulheres que mostram a visão de mundo delas, e compartilham isso pra que você consiga encontrar sua visão e possa levar isso adiante”, resume.

Não é só o coração das campistas que acaba mexido ao fim da semana do evento. Ser voluntária do Girls Rock Camp também pode ser uma experiência transformadora, segundo a programadora de sistemas Aline Matos – mais conhecida como Rety. Baixista desde 1996, quando vendeu o videogame para comprar o instrumento, Rety teve sua primeira experiência ensinando baixo durante a edição de 2020. “Poder deixar tudo um pouco mais leve para essa geração é emocionante”, conta. 

A vivência com as meninas fez Rety olhar para a própria história: a baixista ainda se lembra das reações negativas de quando uma de suas bandas, formada apenas de mulheres, saiu no jornal, anos atrás. “Era tão hostil o ambiente. Olhar para as meninas, e pensar que talvez elas não precisem passar por isso emociona porque eu queria que alguém tivesse acreditado em mim na época”, comenta. Da nova experiência, a voluntária leva uma mensagem importante: de esperança em um futuro melhor.  

Estrutura em rede

Independente, desde sua criação o projeto é totalmente voluntário, sem fins lucrativos, e não aceita patrocínios, apenas apoios e parcerias empresariais. Por isso, para acontecer, o Girls Rock Camp conta com uma estrutura de coletivo. Além de Carla e Roberta, também encabeçam o projeto a servidora pública Marlisi Rauth, e a designer Gabriela Pinheiro. Com quatro coordenadoras, o Camp acontece por meio de uma comunidade de mulheres ao redor, que formam uma rede de apoio.

Música é pano de fundo para transformações mais profundas, como na autoconfiança das campistas. Foto: Camila Diaz

Além do trabalho realizado durante a semana do Girls Rock Camp, há oficinas, eventos e outros trabalhos realizados pelo grupo ao longo do ano. “Ainda somos um coletivo, mas esse ano temos intenção de virar uma ONG mesmo”, conta Roberta. Como a maior dificuldade é conseguir o espaço físico para que o evento aconteça, a ideia é – por meio do fortalecimento do projeto – resolver esse problema. 

Interessados em colaborar com a ideia podem oferecer parcerias, doar instrumentos, ou colaborar financeiramente com o projeto. “A gente existe pra mudar o mundo por meio das mulheres. Para no futuro termos mulheres mais fortalecidas, que confiam mais umas nas outras, que se unam para fazer essa rede crescer”, finaliza Roberta. 

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