A adesão dos municípios a compra de livros didáticos para a Educação Infantil foi recebida com resistência nas secretarias municipais de educação e Centros de Educação Infantil no Paraná. Em pelo menos um município do estado, a opinião dos docentes foi ouvida em respeitada. Foi em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Mas em Curitiba, apesar da manifestação por escrito dos profissionais da Educação Infantil, a secretaria fez a adesão e fez as escolas escolherem as obras a serem adquiridas.
Em São José dos Pinhais, o departamento de Educação Infantil recebeu manifestação por escrito de 42 dos 44 Centros Municipais de Educação Infantil (CMEI) contra a adesão. “Nosso trabalho tem base nas interações sociais e na brincadeira. Nossa avaliação é que as obras não dialogam com isso”, explica a diretora do Departamento, Sara da Silva Pereira.
Segundo ela, os docentes e o departamento tiveram o respaldo do secretário de Educação, Aldrian Matoso. E o município decidiu não aderir ao programa para a Educação Infantil. Foi um dos três municípios (de 399) do estado a se recusar a participar do programa. Além de São José, Campo Largo e Pinhais também se recusaram.
Uma quarta cidade teria aderido, mas liberou as escolas para decidir se queriam adquirir as obras. A adesão ao programa era voluntária tanto para as secretarias quanto para as escolas. Com a liberação da secretaria, os CMEIs puderam decidir se iriam comprar os livros que realmente iriam usar.
Pereira disse que viu com surpresa a adesão de Curitiba ao programa. Mas não foi uma decisão da equipe pedagógica. O Plural apurou que os profissionais da educação infantil do município se manifestaram por escrito indicando as razões para não adotar os livros. Curitiba, assim como São José, tem uma tradição de trabalhar com uma base metodológica focada em aumentar o repertório das crianças.
Por outra lado, as obras selecionadas para Educação Infantil no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) incentivam uma rotina escolar estruturada e exercícios de repetição sem relação com a experiência da criança. Os professores da rede municipal deixaram claro para a Secretaria de Educação de Curitiba que as obras, se compradas, não teriam uso na atual rotina dos CMEIs.
Apesar disso, a secretária Maria Silvia Bacila assinou a adesão do município e orientou os CMEIs a escolherem as obras a serem adquiridas. Como resultado, os livros foram comprados e entregues, mas permanecem sem uso nem utilidade dentro da atual organização do ensino infantil em Curitiba.
Segundo a professora do Departamento de Educação da UFPR, Catarina Moro, “Curitiba tem uma história de trabalho na educação infantil e a adesão ao programa contraria essa história”. Para ela, a proposta dos livros do PNLD “é um modelo que a gente já experimentou”. Outro problema é que elas contemplam só uma metodologia, sem respeitar a autonomia das escolas e a diversidade do ensino público.
Moro, que acompanha as discussões tanto de profissionais da Educação Infantil que estão complementando sua formação na UFPR quanto os fóruns nacionais da área, diz que “os profissionais do corpo técnico que estão em formação continuada” se mostraram bastante críticos a proposta. “Os professores se vêem reféns da proposta”, completa, uma situação que vai contra a autonomia pregada na rede pública de ensino.



