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A programação do 31º Festival de Curitiba, como a de edições anteriores, é uma verdadeira maratona. Pode parecer exagero falar isso, entretanto são 350 atrações – peças de teatro, dança, shows de humor, e por aí vai. Se você começou a exercitar a matemática, são apenas 14 dias de festival entre 27 de março e 9 de abril. É humanamente impossível assistir tudo. Fora organizar a agenda, é preciso calcular o quanto de arte cabe no bolso.
Neste ano, a curadoria da Mostra Lúcia Camargo direcionou o olhar para a representatividade, a inclusão e também a valorização da arte local. Como os ingressos estão à venda (alguns já quase esgotados), o Plural fez um “top 7” para indicar aos leitores. Precisamos confessar que a ideia era escolher cinco imperdíveis, porém não demos conta (afinal, são 32 espetáculos nesta mostra que é a principal do Festival de Curitiba). Confira as sete escolhidas.
1 – “Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos”
Tem gente que torce o nariz, mas prêmios servem como pistas do que ver de bom por aí. E essa peça da Cia de Teatro de Heliópolis (sim, da favela), ao que tudo indica, fez por merecer o Prêmio APCA de Melhor Dramaturgia (Dione Carlos) e também as indicações ao Prêmio Shell nas categorias Direção (Miguel Rocha), Dramaturgia e Música (Alisson Amador, Amanda Abá, Denise Oliveira e Jennifer Cardoso).
É um teatro que nasce periférico, mas que fala para o mundo. O enredo trata do que é a vida de mulheres ligadas a homens encarcerados e ainda de violência, pobreza, carência de saúde e educação. Os saberes ancestrais e as crenças africanas também sobem ao palco, apresentados como ferramentas seculares de resistência.
Sessões na segunda-feira (03/04) e terça-feira (04/04), às 20h30, no Teatro da Reitoria.
2 – “Ficções”
Dizer que essa peça de teatro é estrelada por Vera Holtz explica por que o espetáculo está nesta lista. A atriz é uma das melhores do Brasil na atualidade. Tem mais, “Ficções” é uma adaptação que parte do best-seller de Yuval Noah Harari, “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, que fala da criação e da perpetuação das crenças coletivas (deuses, dinheiro, nações).
Mesmo quem não conhece o livro, deve aplaudir de pé. Pois a proposta parece ter muito do que levou Holtz a conquistar mais de 1 milhão de seguidores nas redes, aquelas postagens artísticas que falam dos absurdos do mundo, com criatividade e ironia. O texto e direção são de Rodrigo Portella.
Apresentações na quinta-feira (30/03) e sexta-feira (31/03), às 20h30, no Guairão.
3 – “Ovos Não Têm Janela”
É um daqueles espetáculos que só pode dar certo, tem tudo para ser sucesso. O texto é uma peça inédita de Manoel Carlos Karam (1947-2007) e também a estreia na direção de Beto Bruel – o célebre e premiado iluminador paranaense que ganhou o mundo ao longo dos seus 50 anos de teatro.
O enredo tem quatro personagens que esperam por um doutor numa sala – claro que há um quê de homenagem ao Beckett, autor de “Esperando Godot” – enquanto a obra ora flerta com o absurdo e ora dá uma piscadinha para o cômico. Como se não bastasse, alguns nomes das principais montagens curitibanas de hoje estão no palco: Gabriel Gorosito, Guenia Lemos, Moa Leal, Renata Bruel e Sidy Correa. Ah, o Bruno Karam, filho do autor, assina a sonoplastia e as ilustrações são do Solda.
Sessões na quarta-feira (05/04) e quinta-feira (06/04), no Auditório Poty Lazzarotto do Museu Oscar Niemeyer (MON).
4 – “O Bem-Amado Musicado”
Um musical para agradar aos aficionados e até quem não curte tanto assim o gênero. Essa é a promessa da nova versão do clássico de Dias Gomes (1922–1999), que aparenta ser tão divertida quanto a telenovela dos anos 70, com o personagem Odorico Paraguaçu (político ficcional cheio de traços dos absurdos da realidade) num enredo entre o realismo fantástico e a farsa.
Nas letras e músicas, estão Newton Moreno e Zeca Baleiro; e a estrela do elenco é o rosto bem conhecido do ator Cassio Scarpin (ele mesmo, o Nino de “Castelo Rá-Tim-Bum”). A aposta é que seja bacana devido a boa sacada do diretor Ricardo Grasson, que intercalou cenas de prosa com momentos de música para o texto não ser cantado o tempo inteiro (ainda bem).
Espetáculos na segunda-feira (03/04) e na terça-feira (04/04), às 20h30, no Guairão.
5 – “Gaslight – Uma Relação Tóxica”
Um thriller que ganhou humor para entrar em cartaz como o último da carreira de Jô Soares (1938–2022). A história começa quando ele e o ator Giovani Tozi assistiram ao filme “À Meia Luz”(1944), versão hollywoodiana do texto de Patrick Hamilton (1904–1962). Daí veio a vontade de levar ao palco a peça originalmente chamada “Gaslight” e rebatizada como “Angel Street” para estrear na Broadway em 1941, fazendo um sucesso arrebatador à época.
Contudo a motivação para a montagem foi o tema – caro às questões feministas e surpreendentemente atual. O enredo mostra um homem que manipula as luzes, as lâmpadas de gás, para fazer a esposa pensar que perdeu a sanidade mental; isso foi a origem do termo moderno “gaslighting”, abuso psicológico que faz a vítima duvidar de suas memórias e percepções.
Como Jô saiu de cena durante o processo, seus papéis foram divididos com outros artistas. A tradução e a adaptação, são também assinadas por Matinas Suzuki, e a dupla formada na direção foi com Maurício Guilherme.
Apresentações na quarta-feira (05/04) e no quinta-feira (06/04), às 20h30, no Guairão.
6 – “A Invenção do Nordeste”
Adaptada a partir do livro homônimo de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, a peça do grupo Carmin ganhou o Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia e o Cesgranrio de Melhor Espetáculo. O enredo coloca o dedo na ferida (principalmente quando se pensa no Sul do Brasil) ao falar do preconceito e desconstruir a imagem estereotipada do nordestino.
O mais legal é que o espetáculo não é ostensivamente didático ou moralista. Em cena, temos a história de um diretor que precisa selecionar um ator do nordeste para interpretar um nordestino. Os candidatos ao papel refletem sobre suas identidades e descobrem que viver um nordestino não é simples. É para pensar o que é o “nordestino”?
Sessões no sábado (08/04) e no domingo (09/04), às 20h30, no Guairinha.
7 – “Matéria Escura”
O espetáculo de dança escolhido para fechar nossa lista deve, no mínimo, despertar a curiosidade da plateia sobre o trabalho dos catarinenses do Cena 11 – companhia que está completando três décadas de atividade. Tem o maior jeitão de algo experimental, incluindo toda sorte de recursos high tech na coreografia de uma dança em certa medida pandêmica. A temática não é inusitada, principalmente quando se sabe que a estreia do espetáculo foi adiada em dois anos pela chegada da covid-19. Mas a presença, os corpos, a energia ao lado da poesia em cena, devem impressionar.
Apresentações na sexta-feira (07/04) e no sábado (08/04), às 20h30, no Teatro da Reitoria.
Festival de Curitiba
A programação completa e outras informações podem ser conferidas no site do Festival de Curitiba. Os ingressos para os espetáculos listados aqui custam a partir de R$ 40 (meia) e podem ser comprados no site do evento ou na bilheteria física do Festival de Curitiba, no Shopping Mueller.




Eu assisti hoje *O AMIGO DO POVO* No teatro do clube Curitibano. Peça maravilhosa muito bem trabalhada e bem representada. Super atualizada
Que maravilha de agenda. Super esclarecedora. Parabéns