Napoleão aparece como “homem comum” em nova biografia

Livro revela o general como um homem de talento para a publicidade pessoal, mas que errou em várias decisões militares

O nome Napoleão passou a ser parte da mitologia moderna: está sempre associado a feitos gigantescos, à ideia de um general genial e invencível, a um tempo de glória na França. Suas imagens sobre cavalos, espada na mão, ou atravessando os Alpes, só reforçam essa condição de um ser sobre-humano, para o bem e para o mal. Mas é preciso lembrar que, no fim das contas, se tratava apenas de um ser humano com suas obsessões, falhas e que muitas vezes tomou decisões absurdamente erradas.

Essa é a ideia de uma nova biografia do imperador francês, lançada no Brasil pela Planeta. Em “Napoleão, o Homem por Trás do Mito”, o historiador Adam Zamoyski tenta retomar a biografia de seu personagem sem elogios exagerados e sem glorificações. A longo de 784 páginas, o leitor conhece Napoleão desde a infância até o exílio final em Santa Helena, passando por toda a trajetória militar, a chegada ao poder, o auge do império e o governo dos 100 dias depois da fuga de Elba.

Zamoyski jamais nega a inteligência de Napoleão nem tenta tirar seus méritos como militar, mas tenta mostrar como a fama de Napoleão dependeu em grande medida do talento que ele tinha para relações públicas. Em sua primeira grande campanha na Itália como general, por exemplo, Napoleão cuidou de mandar novidades constantes para a França. Seu jornal diário da guerra era colado em lugares públicos, lido pelos parisienses com avidez, e sempre mostrava as vitórias do exército francês com pitadas de exagero.

As baixas da França eram omitidas, e a facilidade com que o inimigo era batido sempre passava por enfeites. De fato, Napoleão usou táticas ousadas e conseguiu uma série de vitórias impressionante – mas segundo Zamoisky, foi o clima criado por ele em Paris com seus relatos e com as telas que encomendava de si mesmo em poses heroicas que o transformaram na novidade do momento.

Quando voltou da campanha na Itália, Napoleão já era um herói nacional, e nem mesmo os governantes do momento – o temido Diretório – tinham coragem de enfrentá-lo. Napoleão se mostrou um jogador brutal e conseguiu em pouco tempo se tornar politicamente invencível. Ao criar o consulado, fez uma jogada de mestre para retirar seus inimigos do caminho: audaz como sempre, jogou os votos para escolha do primeiro-cônsul no fogo e fez com que o aclamassem para o posto.

Zamoyski mostra erros terríveis de Napoleão como general, como por exemplo quando levou as tropas francesas para o Egito absolutamente despreparadas para o calor do deserto. Muitos dos homens do improvisado exército francês marchavam descalços na areia fervente. Há até uma cena chocante, de um soldado,que já sem aguentar a sede, o calor e a marcha infinita, coloca-se à frente de Napoleão e corta a própria garganta, dizendo que a culpa daquilo era do general.

Isso antecipava o erro quase idêntico que levaria à derrocada do imperador ao invadir a Rússia. Assim como não havia previsto as necessidades básicas para uma marcha no deserto, Napoleão não proveu seu exército com o necessário para enfrentar o exército russo.A debandada a partir de Moscou foi uma tragédia humana, que dizimou as forças francesas e acabou permitindo a derrota militar final de Napoleão, pouco tempo depois.

O livro também mostra Napoleão como um homem pueril, que faz manobras militares ousadas apenas para impressionar mulheres bonitas. Como na vez em que mandou lançarem barcos ao mar durante um período absolutamente inadequado em pleno Canal da Mancha; ou quando mandou disparar canhões só por capricho de sedutor. Mais de uma vez, esses arroubos acabaram em mortes de franceses, e Zamoyski retata Napoleão como absolutamente indiferente ao resultado de suas ações.

Num momento de precursor do negacionismo, Napoleão também se irrita com seus pares da academia francesa que insistem em dizer que a lepra era transmissível. Napoleão chegou a tocar no pus das feridas de doentes para dizer que não era assim. E mesmo diante de provas de que estava errado, queria que os médicos se dobrassem a seu poder, dizendo que era importante para o exército acreditar que não estava correndo riscos ao invadir áreas contaminadas.

No geral, o livro dá uma versão mais interessante do general e do imperador, mostrando que o que ele conseguiu – ampliar o território francês, dominar grande parte da Europa, impor certos ideais da Revolução, criar um Código Civil etc – se deveu a grandes talentos, sim, mas que isso exigia também a superação de vários pontos fracos, como a vaidade, a teimosia e uma autoimagem que não deixava ver as coisas claramente em alguns momentos.

Sem os adornos mitológicos, a personagem só cresce, e se torna um homem real capaz de dobrar a vontade de centenas de milhares de pessoas, mesmo quando tudo estava contra ele. Mas a violência e o autoritarismo exibidos na biografia acabam sendo um retrato igualmente importante e que nos mostra os perigos de confundir seres humanos com figuras mitológicas.

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