Existe uma aura em torno do aeroporto Afonso Pena. E isso vale tanto no sentido literal como no figurado. No primeiro, essa aura responde fisicamente por nevoeiro ou cerração, um fenômeno meteorológico que reduz drasticamente a visibilidade. E esse nevoeiro já gerou um símbolo da cidade, quase um orgulho — como se fosse algo bom —, que é a tendência de prejudicar os pousos no aeroporto que, sabemos, fica em São José dos Pinhais, não em Curitiba.
Quantas vezes não ouvimos e vimos no rádio e na televisão ou lemos nos jornais que o Afonso Pena fechou? Ou que não havia teto para o pouso? Ou que vários voos foram cancelados por causa do nevoeiro? Ou que o aeroporto precisava urgentemente de um tal ILS Cat 3?
E veja que interessante. Você, curitibano, pode até não ser especialista em aviação, mas possivelmente tem um conhecimento razoável sobre o assunto, afinal não é qualquer um que já ouviu falar ou mesmo que sabe o que é o ILS, a sigla em inglês para Instrument Landing System, ou Sistema de Pouso por Instrumento.
Por muito tempo essa sigla ficou batendo na cabeça dos curitibanos. Só ela seria capaz de acabar com o fechamento do Afonso Pena. Mas tinha que ser o ILS Cat 3, que permitiria pousos praticamente sem visibilidade e teto super baixo. Um espetáculo tecnológico e muito superior ao que estava instalado, o ILS Cat 1, que pouco ajudava contra o fechamento do aeroporto.
Teve até campanha de empresários e de veículos de comunicação pedindo a instalação desse equipamento para resolver definitivamente a questão. O griteiro foi enorme, lembro bem.
Esse barulho, acho eu, começou na década de 1990. E no Brasil, sabemos, nem tudo ocorre na velocidade que deveria. Mas em 2002, a Infraero, então administradora do aeroporto, encontrou uma solução intermediária: o ILS Cat 2. Melhor que o 1, mas pior e mais barato que o 3.
A situação melhorou bastante, é fato. Menos atrasos, menos cancelamentos. Mas ainda faltava algo a mais para garantir a operação plena do aeroporto. E foi em 2012 que a Infraero adquiriu os equipamentos do ILS Cat 3, que acabariam de vez com os problemas meteorológicos do Afonso Pena. Engano.
Apesar de chegar a ser instalado, demorou muito tempo para estar disponível, aguardando a homologação por parte da Força Aérea Brasileira (FAB). As cartas aeronáuticas estavam prontas, indicando a existência do ILS Cat 3, mas um asterisco gigante no sistema de avisos da FAB deixava claro que não poderia ser utilizado.
Em algum momento, o ILS Cat 3 chegou a estar apto para uso, só que não houve qualquer mudança em relação aos cancelamentos. Tudo continuou igual a antes. E a explicação é simples. Para pousar com o ILS Cat 3, os aviões e as tripulações precisam estar homologadas. E isso custa uma grana significativa e que pouco valeria a pena para as companhias aéreas. Melhor lidar com alguns cancelamentos do que colocar centenas de pilotos e aeronaves em processo de homologação.
O ILS Cat 3 foi usado em raríssimas ocasiões, como em uma campanha de treinamento de pilotos e do avião Airbus A330neo da Azul em 2020. Mas só para isso mesmo, para homologar pilotos e um avião que não operaria no Afonso Pena, e sim em voos internacionais da companhia, para os Estados Unidos e Portugal.
E hoje, não há nenhuma carta de aproximação ativa no Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) prevendo procedimento algum com o ILS Cat 3. É como se ele tivesse ido embora sem nunca ter vindo de fato. “Saudades do que a gente não viveu ainda”, roubando a frase do poeta Neymar.
Não está claro se em algum momento ele será reativado. Possivelmente não, pois o aeroporto Afonso Pena, sabe-se, agora é administrado pela CCR Aeroportos e assim seguirá pelos próximos 30 anos. E existe o projeto da nova pista, a tão alardeada terceira pista, e não há previsão de instalação do ILS Cat 3. Só o Cat 2 mesmo, que é o utilizado atualmente na pista principal.
O certo é que o barulho todo que foi feito em torno do ILS Cat 3 foi só barulho. E um barulho daqueles meio sem sentido. Um barulho que se silenciou rapidamente diante da realidade. E assim vamos seguir, com o inverno, o nevoeiro e o aeroporto que não dá teto.


Na condição de técnico aposentado e Curitibano, sempre participei ativamente da discussão sobre o ILS CAT 3 do Afonso Pena e meu parecer sempre foi contrário à sua instalação.
Efetivamente é uma questão de custo de escala, o equipamento em si não é tão mais caro que CAT 1 ou 2 mas ele também não basta, há uma série de implementações necessárias, como a demanda de instalar luzes de centro de pista, numa obra complexa, demorada e que implica no fechamento da pista por várias semanas ou o controle de obstáculos no entorno do aeródromo.
Além disso, com explicado na reportagem, o movimento e a quantidade de “pousos perdidos” pelas empresas nos eventos em que a meteorologia fica abaixo de CAT1 não justifica o custo da manutenção operacional das equipagens e aeronaves para este tipo de operação.
Com todo respeito à nossa cidade, o aeroporto não tem demanda que justifique economicamente a operação CAT 3.
Por fim, mesmo os poucos aeroportos que operam CAT 3 no mundo também fecham, o nível de segurança da aviação mundial só é elevadíssimo porque o sistema de navegação aérea compreende as limitações físicas e tem alternativas para reduzir o risco. Quando se abre mão das alternativas (não pousar é uma delas) acidentes podem acontecer.
Minha humilde sugestão é que a sociedade se empenhe em garantir que o projeto da nova pista incorpore todos os requisitos necessários à operação CAT 3, que não são poucos e que representam custos muito superiores à construção de uma taxiway paralela à pista atual…
Acabei de viajar a Porto Alegre, onde a pista principal do aeroporto foi ampliada para cerca de 3.200 metros. Isso possibilita voos internacionais com aviões de grande porte. Enquanto aqui ainda estamos discutindo a lenda do ILS Cat3.
Um aeroporto que não conseguiu até hoje construir uma pista de taxi ligando-se até a cabeceira 15 e ampliar a pista auxiliar, então como vou esperar terceira pista e ILS Cat II sempre operacional?
Gustavo, um fato curioso aconteceu ontem comigo e nunca havia presenciado, mesmo viajando toda semana, e claro, sempre presenciando arremetidas ao tentar pousar aqui em Curitiba.
Estava vindo de Viracopos e o tempo estava bem fechado aqui na região. Curitiba estava com nevoeiro, mas algo que não impediria um pouso visual.
Mas logo o comandante fez um aviso: “Favor desligar completamente absolutamente todos aparelhos eletrônicos, inclusive fones bluetooth, pois faremos um pouso de precisão. O sistema de entretenimento tambem será desligado. Certifiquem que os cintos estao afivelados”.
E após alguns minutos aconteceu o pouso, praticamente sem nenhuma visibilidade. Era um Embraer da Azul 195-E2.
E sabendo da lenda do ILS Cat 3, na hora me veio a cabeça que já estaria em utilização de fato. Será?
Já presenciei diversas situações aqui em que, por muito menos, teve arremetida.