Crônica de um instante

Elas não conseguiram começar a venda, porque um rapaz começou a fazer rap e, ao final, disputaria as mesmas moedas

“E você vendeu bastante?”

O menino estava encarapitado na grade da plataforma do biarticulado. Aos seus pés, uma cesta de vime com doces. Ao seu lado, uma menina, de cabelos crespos como os seus, expressão séria, observava.

“Que nada, comecei agora.”

“Que idade você tem?”

O homem tinha a roupa surrada e uma expressão vazia. Olhava o garoto e a garota com um ar sofrido. Muito gripado, assoava o nariz a todo momento.

“Dez. Ela tem doze. Tá tão difícil, né?”

Olhos baixos, mochila nas costas, a menina não sorriu.

“Já era pra ter melhorado… Olha, chegou. Vão vocês nesse, eu pego outro.”

Entramos eu e as duas crianças. Elas não conseguiram começar a venda, porque um rapaz começou a fazer rap e, ao final, disputaria as mesmas moedas. Ele me olhou e rimou:

“O homem ali tá lendo, quer ser inteligente. De burro, nesse país, já basta o presidente.”

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