Famílias reféns da dependência química

Segundo Unodc, 5% das pessoas no mundo usam drogas ilícitas. Efeitos se estendem a todos em torno do usuário

Ao menos 5% da população mundial usou drogas ilícitas em 2020. Dos 275 milhões de usuários, 36 milhões sofreram de transtornos associados aos entorpecentes, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2021, do Escritório das Nações Unidas Sobre as Drogas (Unodc). Os efeitos, no entanto, se estendem a todo o núcleo familiar.

Estudo desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) demonstra o quanto as drogas impactam a família. Metade das famílias de usuários tem vários aspectos da sua vida afetados. Vivenciar prolongadamente esse tipo de situação prejudica a qualidade de vida ao provocar nos familiares sofrimento, doenças sintomáticas, danos psicológicos.

Embora seja de 2013, o estudo da Unifesp é o maior já realizado sob essa perspectiva. Intitulado Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (LENAD), revelou que, à época, ao menos 28 milhões de pessoas no Brasil tinham algum familiar com dependência química, com uso contumaz ou regular de drogas lícitas ou ilícitas.

O estudo conclui que a dependência química desencadeia sentimentos irracionais em todos à volta. É um tipo de comportamento que não muda ao sabor das estatísticas, apenas aumenta suas proporções. São efeitos como alterações no sono, de humor, depressão, pensamentos suicidas, ansiedade, distúrbios alimentares, entre outros sentimentos negativos.

Os impactos são devastadores nos aspectos físicos, psicológicos e financeiros, aponta o estudo, intitulado Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (LENAD). Os familiares de usuários de entorpecentes apresentam mais sintomas físicos e psicológicos do que a média da população que não enfrenta esse tipo de problema.

No núcleo familiar, as mães são as que mais sofrem, segundo o estudo. Muitas abandonam as atividades ou são demitidas por terem a produtividade reduzida em função de atrasos constantes ou problemas de saúde. Percebe-se que os familiares apresentam alguns comportamentos padrões, como esclarece a psicóloga Mayara Victória, que atende dependentes químicos.

Primeiro vem a negação, que implica a não aceitação da dependência e a resistência a lidar com o familiar que usa drogas. Depois, vem a percepção sobre o problema e as tentativas de controlar o sujeito de modo a tentar que evite o uso de entorpecentes.

A luta para compreender a doença e sobre como enfrentá-la faz com que as mães sofram mais. A família que enfrenta esse problema encontra-se desgastada, impotente e muitas vezes não sabe o que fazer, podendo acarretar um sentimento de culpa. Mayara afirma que, em situações como essa, a família também precisa ser acolhida, cuidada e informada.

A falta de informação pode levar a escolhas erradas na abordagem da doença, mesmo que haja a intenção de acertar e ajudar o usuário. As consequências do uso de drogas afetam não só o usuário, mas também toda a família. Histórias que se repetem na casa de milhares de brasileiros que sofrem por ter um parente usuário. É o que mostra o estudo da Unifesp.

A psicóloga Mayara Victória diz que primeiro vem a negação da dependência e só depois a percepção do problema.

“A sensação foi de vê-lo indo para o matadouro”

Joana (nome fictício), de 59 anos, levou algum tempo para entender que o filho estava acometido de uma doença. “A gente não vê quando a droga entra na nossa vida, a gente vê quando já está no estrago”, relata. A mãe diz que ele era um bom rapaz, muito trabalhador, mas mudou muito com a dependência química. Quando ela se deu conta, o filho tinha 39 anos.

“Um dia me disseram que ele estava usando crack o dia todo”, recorda. Foi nos períodos em que o filho estava sumido que ela mais sofreu. “Perdi mais de seis quilos. Não dormia. Fui em vários lugares onde os viciados ficam, para tentar resgatar meu filho. Não sinto vontade de fazer nada, e quando faço não tenho prazer nenhum, me falta algo”, desabafa Joana.

A situação se agravava a cada dia. O filho começou a subtrair objetos da casa para vender e sustentar o vício. “A sensação foi de vê-lo indo para o matadouro, porque, se não parasse, só teria dois fins: preso ou morto”. Depois de ler sobre o assunto e frequentar encontros de familiares de dependentes químicos, a dona de casa diz ter mudado sua visão sobre o assunto.

“Eu tinha preconceitos com usuários antes disso bater na minha porta”, diz. Para compensar o vazio e achar a melhor maneira de ajudar o filho, Joana encontrou uma das unidades dos Grupos Familiares AI-Anon do Brasil, voltado a familiares e amigos de alcoólicos. O apoio do grupo garantiu para ela e o filho a ajuda psicológica que precisavam para seguir em frente.

“Recebi alguns encaminhamentos e agora frequento um grupo de apoio. Ainda não tenho forças para ir lá na frente e contar minha história, mas aprendo muito com as histórias das outras mães. Um dia sei que também vou poder ajudar outras mães que estão preocupadas com seus filhos como eu”, finaliza Joana. 

“Me encantei com ele”

Ninguém pode dizer que está completamente livre de se envolver com alguém que seja dependente químico. Quando se descobre que o problema envolve a pessoa amada, o chão desaba. Essa é a história de Lascinia, oficial judiciária de 41 anos (o sobrenome foi omitido). Lascinia conta que sempre foi muito protegida pela mãe, não tinha liberdade para conhecer o mundo.

“Minha mãe nunca me preparou para o mundo. A forma dela me preparar era me blindando”, lembra. Foi aos 17 anos que conheceu a realidade da forma mais dolorida. Nas saídas noturnas com as colegas, conheceu um rapaz e se apaixonou. “Me encantei com ele”, recorda.

Lascinia achava que ele só fumava maconha e bebia. “Foi só no decorrer do relacionamento que fui vendo que a coisa era muito mais séria, mais grave”, diz. Ela não enxergava o nível de comprometimento que ele tinha com o vício. Após um ano morando juntos, ela engravidou. As coisas começaram a ficar mais difíceis.

Ela conta que tinha esperança de que, quando o filho nascesse, ele iria mudar, “ia largar tudo aquilo”. Mas não foi o que a aconteceu. Ao longo da gravidez, a situação do companheiro foi se deteriorando. Quando se está envolvido nesse tipo de situação, há sempre a esperança de que o outro vai mudar. “Quando a gente é nova e inexperiente, essa esperança é ainda maior”, comenta.

No decorrer da convivência, ele se tornou violento. “Chegava alcoolizado, começou a ficar agressivo comigo, completamente fora de si, quebrava tudo dentro de casa. Chegou me agredir na gravidez”, lembra. A situação foi se agravando, ele começou a roubar para sustentar o vício. Acabou sendo preso. Nesse período, Lascinia dizia aos familiares que ele estava trabalhando fora.

Libertado após três anos na prisão, voltou pior. Lascinia conta que tinha medo de ir para casa. Não contava nada para sua mãe, tinha vergonha. Só procurou ajuda quando as coisas foram ficando mais grave. Hoje, aos 41 anos, tem consciência de que uma escolha errada pode impactar a vida toda da pessoa e daqueles que estão ao redor. 

Pandemia potencializa riscos de dependência

Apesar dos perigos, o uso de entorpecentes segue em franca expansão em todo o mundo, agora potencializado pelo isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19. A conclusão é do Relatório Mundial sobre Drogas 2021, realizado pelo Escritório das Nações Unidas Sobre as Drogas (Unodc).

O mercado de drogas ilícitas movimenta US$ 900 bilhões por ano e soube se adaptar à pandemia. Por isso, o Unodc estima que o número de pessoas que usam drogas pode crescer 11% em todo o mundo até 2030. De acordo com o relatório, os traficantes diversificaram os negócios para se adaptar à nova realidade, baixando os preços e ampliando a cadeia de distribuição.

No Brasil, o isolamento social provocou um aumento nas internações decorrentes do uso de alucinógenos. O Ministério da Saúde identificou uma alta de 54% no atendimento ambulatorial nas redes credenciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de março a junho de 2020, se comparado ao mesmo período de 2019.

Levantamento realizado entre abril e maio pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aponta que 38,4% dos 4 mil entrevistados em quarentena relataram aumento no consumo de drogas, lícitas ou ilícitas. A maioria disse que o uso dessas substâncias ajudou a lidar com o isolamento social (veja os dados no gráfico).

Outra pesquisa acende o alerta. Realizada pela Fiocruz entre abril e maio de 2020, revela que 40,8% dos participantes relataram maior consumo de drogas lícitas durante a pandemia. As restrições de mobilidade e o isolamento social têm imposto maior estresse e uso de substâncias e, às vezes, agravamento de transtornos.

Segundo Tiago Guimarães, enfermeiro e gestor de relacionamento da Clínica Cleuza Canan, o aumento no quadro de ansiedade, depressão e ouras crises provoca o uso dessas substâncias. Na percepção do especialista, os atendimentos clínicos e ambulatoriais, além das internações, tiveram um aumento significativo nesse período.

Ex-dependente químico e voluntário da Remar Brasil, ONG que atende pessoas em situação de rua, Rafael dos Santos menciona o que, para ele, seria um efeito colateral do auxílio emergencial pago ao governo para minimizar os efeitos da pandemia entre as pessoas mais pobres. Na sua visão, isso ajudou no aumento no consumo de drogas, pois desde a aprovação do auxílio os pedidos de ajuda diminuíram na ONG.

Orientação: Mauri König (jornalista e professor). 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Plural se reserva o direito de não publicar comentários de baixo calão, que agridam a honra das pessoas ou que não respeitem níveis mínimos de civilidade. Os comentários são moderados por pessoas e não são publicados imediatamente.

Rolar para cima