O sertanejo na Orquestra Sinfônica do Paraná te incomoda?

Mais do que oferecer determinismos elitizados, precisamos abrir diálogos plurais com a orquestra com a qual contribuímos

No dia 24 de maio, terça-feira desta semana, li aqui no Plural um texto do Rogerio Galindo intitulado: “Ratinho Jr. faz Orquestra Sinfônica do Paraná tocar música sertaneja”. Depois, escrevi para o jornalista e perguntei o que ele achava de continuar o assunto, usar o espaço da minha coluna para observar as coisas da perspectiva de alguém que trabalha com cultura, e com essa cultura específica. Galindo me respondeu: “Manda bala!” – e cá estou.

Desmonte à cultura

Quando vi o título e a gravata do texto, fiquei curiosa para entender como Galindo desenvolveria o assunto. Afinal, como ele ressalta, é a primeira vez em quase quatro décadas que a Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP) se dedica a esse repertório. Deparei-me com uma crítica sobre a forma com que a atual gestão do governo lida com a cultura do estado, usando a orquestra de palanque eleitoral enquanto oferece à população um concerto com repertório popular.

Uma tática populista que, para Galindo, fere gravemente os propósitos culturais da orquestra. Ele escreve: “A ideia de usar uma orquestra de músicos eruditos é um desplante, uma zombaria com o contribuinte, que paga por lebre e leva gato no lugar. Os impostos que pagamos para gastos em cultura estão todos os dias sendo desviados pelo atual governo para fazer populismo na tevê estatal, na rádio, no Guaíra e, agora, na orquestra”.

Galindo também ressalta que o atual governador tem um descaso com a cultura geral, mas em especial com a erudita. O jornalista sustenta que gêneros populares não precisam de apoio do governo, porque eles enchem estádios mesmo com ingressos caros. Então ter uma orquestra estatal tocando esse repertório, para Galindo, é um disparate.

Fiquei incomodada.

Erudito?

O Brasil é o único lugar do mundo que chama a música clássica europeia de erudita. Confesso que para mim esse termo é bem problemático, pois erudito é tudo aquilo que é vasto em cultura. Porém, cotidianamente, essa palavra é associada a uma cultura específica, que está longe de ser a nossa. Música orquestral não é algo que representa o Brasil, nem o Paraná. Poderia ser se fosse de interesse das pessoas construir esse cenário. Mas, da mesma forma que a ópera é a música popular da Itália do século 19, outras músicas são as músicas populares de seus tempos e espaços. Aqui no Paraná a cultura é do sertanejo, e isso faz sentido na vida das pessoas.

Esses dias me deparei com um vídeo do pesquisador Thiago de Souza, mais conhecido como Thiagson. O professor de música clássica e doutorando em funk faz a seguinte comparação: “Brasileiro fazendo música clássica é como sul-coreano fazendo samba ou pagode. (…) Pessoas de contextos sociais e geográficos diferentes podem até dominar muito um estilo musical, mas a música não é só domínio técnico, música é identidade, pertencimento”.

A Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP), em 37 anos de atuação, ainda não tinha dedicado seu tempo à cultura popular do estado que ela representa. Fiquei feliz que os concertos estavam cheios. Lamento muito que seja nessa circunstância política, mas, se essa orquestra se pretende vasta em cultura é preciso que ela esteja em contato com o que acontece cotidianamente ao seu redor.

Repertório

Brasílio Itiberê, Jocy de Oliveira, Augusto Stresser, Henrique de Curitiba, Bento Mossurunga, José Penalva e Alceo Bocchino são alguns nomes de compositores paranaenses dedicados à música de concerto, porém não vemos esses nomes na programação da OSP. Também não é frequente ver compositores brasileiros na programação da orquestra, exceto por Villa-Lobos.

Cláudio Santoro, Guerra-Peixe, Carlos Gomes, Camargo Guarnieri, Radamés Gnatalli, Gilberto Mendes, Nunes Garcia e Edino Krieger são outros dos nomes consagrados na música de concerto brasileira. Raramente os tocamos. Em geral, o repertório é composto por um cânone europeu do século 19, que me agrada muito, mas que está muito distante da maioria de nós.

Um corpo artístico é uma estrutura viva que precisa dialogar com o ambiente que ela está, especialmente se carrega a função de representar um estado inteiro musicalmente.

Talvez se mostrássemos às pessoas que gente daqui, de perto de nós, também faz música de concerto, elas chegariam perto para ver o que é, descobrir como soa e analisar se gostam. Talvez se nos concentrássemos em mostrar a diversidade e a vasta cultura que nos cerca, poderíamos ser atraentes de outras formas, e não só um povo que toca Brahms com sotaque.

Diálogos musicais

A OSP, quando colocada em comparação com outras orquestras brasileiras, é uma orquestra de atividade média. Ela oferece à população concertos. Outros corpos artísticos similares, como a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Filarmônica de Minas ou a Filarmônica de Goiás, são, além de corpos artísticos, entidades culturais de seus estados. Oferecem educação musical a músicos e à população por meio de palestras, concertos didáticos, visitas guiadas às salas de concerto, diálogos com grandes nomes da música, estreia de peças, masterclasses, entre outras atividades que aproximam a música das pessoas.

Uma orquestra de 37 anos é bastante jovem e ainda tem muito a crescer, e definitivamente não deve existir apenas para carimbar sobre o Paraná o status de “estado civilizado”. Toda cultura deve ter o direito de existir e coexistir em espaços diversos, e é o respeito que nos constrói socialmente, não a existência de entidades culturais europeias como orquestras, universidades, museus etc. Orquestras são pessoas tocando juntas, pessoas diversas, que podem tocar mais do que só uma música, que podem contemplar mais pessoas e promover encontros entre elas. 

Desejo um estado que possibilite a existência de todo corpo artístico que tenha algo a oferecer para as pessoas. Meu sonho, como maestra, é que tenhamos mais do que uma orquestra para todo o estado, mais do que um grande artista popular famoso que é “o paranaense”, mais do que um concerto por semana aos domingos de manhã.

Eu me levanto e trabalho todos os dias para poder fazer a música que faz sentido para mim e para quem está comigo. E desejo que todo e qualquer trabalhador da música tenha espaço para fazer a música que deseja, com apoio e dignidade, livre das amarras do julgamento colonial e elitizado.

11 comentários em “O sertanejo na Orquestra Sinfônica do Paraná te incomoda?”

  1. Marcelo de Carvalho

    Queremos assistir nossa Orquestra ticando Mozart, Beethoven, Villa Lobos, Vivaldi, os clássicos. Será que pra ouvir boa música teremos que viajar pra SP. Lá por exemplo neste final de semana vai ser tocado o Prokofiev.

  2. Oi, Carlos, aprecio a manutenção da salubridade desse espaço, sinto que mesmo discordando veementemente conseguimos nos dirigir de maneira razoável e por isso creio valer a pena ainda mais um pouco de prosa:

    A ironia da sua pergunta não me fugiu, eu gosto bastante dessa figura de linguagem e não resisto a esticá-la por espelho. Ainda assim, explorar as possibilidades literais é revelador do que existe de verdade nas ironias que cultivamos, e por isso achei muito interessante o desdobramento posterior, porque no fundo você usa a coexistência literal e compulsória da música sinfônica e da sertaneja no mundo, que se dá independente de quaisquer opiniões nossas, como argumento para que uma não “interfira” no espaço da outra, sendo que qualquer defesa da coexistência de ambas em espaços diversos é justamente sobre quais espaços cada uma pode ocupar sem ser considerada uma aberração invasora que merece ser escorraçada imediatamente.

    Não é nem novidade, né? As orquestras de Barretos e de Goiânia já fizeram isso antes não tem nem muito tempo. Seguem ambas vivas e executando majoritariamente repertório sinfônico europeu.

    Não conheço de fato uma contraproposta de um cantor sertanejo que inclua o repertório sinfônico em suas apresentações, em minha defesa eu não acompanho esse universo de perto, então mesmo que houvesse eu provavelmente desconheceria, mas não vejo a necessidade da exigência dessa contrapartida porque ninguém está defendendo a exigência da presença perene desse repertório em programas de orquestra, e sim a sua possibilidade pontual sem que haja uma exaltação tamanha – se um dia houver uma intervenção no sentido contrário e alguém chamar de desplante eu também vou discordar. Já vi a iniciativa de levar uma orquestra tocando pela cidade em um trio elétrico, que não é seu cenário mais habitual, e achei ótima!

    Também quando se comenta o quão pouco prestígio se dá aos compositores nacionais em comparação aos europeus é a observação de um fato e uma sugestão de mais caminhos possíveis. Essa sugestão se alimenta de argumentos bem mais densos que nacionalismo patriótico e ainda assim não se apresenta como uma exigência ou queixa na mesma proporção de quem defende a não execução do concerto sertanejo por exemplo, porque não se deixa de apreciar as interpretações oferecidas, inclusive se denota o quanto elas agradam, e nunca se sugeriu energicamente que os tantos concertos apenas com compositores europeus fossem uma insanidade, uma afronta etc etc

    É um debate muito mais complexo do que se conseguiria cobrir em uma coluna quem dirá em sua humilde sessão de comentários, mas existe uma diferença primordial entre a produção sinfônica de países onde essa era uma manifestação mais genuína em sua origem, em comparação aos que se adequam a ela por caminhos muito mais tortuosos, de colonização e validação do conhecimento apenas por meio de sua conformação com o estabelecido por autoridades alheias, externas.

    Sua comparação da música com a bala 7belo depois do banquete me lembra a fala de um colega professor de música que na época que estudamos juntos me incomodou: “a gente escuta uns rap, uns funk, que eles levam pra gente conhecer, finge gostar do que eles gostam pra depois mostrar o que é música boa mesmo e eles estarem dispostos a ouvir”.

    O negócio é que quem trabalha com educação musical de peito aberto mesmo sabe que fingir não se sustenta. Uma coexistência honesta e harmoniosa entre diversos gêneros musicais não se constrói no deboche e na insistência da desqualificação de uma pela outra.

    Até mesmo a composição oficialmente sinfônica fica engessada quando nos apegamos mais ao carimbo de erudito e catedrático que um determinado repertório muito bem delimitado temporal e geograficamente pode imprimir pro grupo executante e seus ouvintes do que a todas as possibilidades que sua formação oferece. É por aí que deixamos de nos abrir não apenas pra execução de músicas como a sertaneja ou jazz ou mpb, mas até para as possibilidades que passam por um conhecimento e domínio técnico em muito semelhantes aos do repertório clássico tido como “banquete”, vide a hostilidade com que frequentemente se recebe também a música de concerto mais contemporânea, por exemplo.

    Sobre a importância de diferenciar cabanas de catedrais eu honestamente não saberia discorrer de maneira que valha até porque eu pessoalmente jamais dividiria a música dessa forma, mas ainda que dividisse, não acharia um ultraje que um grupo criado na catedral visite uma cabana uma vez em quarenta anos. Existem outros repertórios na programação que também serão repetidos e levados pra diversas cidades, os quais atendem o anseio pela sonoridade que muitos associam como a única correta pra orquestra. Eu acredito que a relação de quem já acompanha o trabalho da OSP há tempos e aprecia sua caminhada precisa ser flexível para não amarrá-la a uma expectativa estreita do que essa deva ser.

    Em tempo, ninguém defende que os trabalhadores da música sejam mais cobrados de qualquer coisa sem que seu retorno financeiro acompanhe de acordo (prática que não deveria ocorrer em nenhum ambiente de trabalho), nem mesmo que eles fazem pouco em relação ao que lhes é ofertado pelo Estado empregador. Repito que quem define toda a programação e as atividades da instituição OSP não são apenas seus instrumentistas, e sugerir que essa instituição pode explorar ainda um vasto campo de possibilidades de crescimento não é menosprezar o que ela já fez ou faz, até porque todos sabemos das limitações extramusicais que grupos financiados publicamente enfrentam por aqui.

    Acho que a partir daqui continuar insistindo cada um em seus próprios argumentos já seria andar em círculos e inundar a coluna com um debate que a extrapola, então me atenho a enviar essa última contribuição e ler as próximas caso venham. Grata pelo diálogo, abraço!

  3. Oi Ananda.
    Ingrid critica o texto do Galindo como se ele não fosse congruente com a coexistência entre sertanejo e música de concerto.
    Minha pergunta foi irônica (diferentemente do comentário do Thiagoson, que é apenas uma tolice pour épater le bourgeois).
    Mas façamos de conta que fiz a pergunta a serio.
    Ao ler a crítica escrita pela Ingrid, a conclusão não poderia ser outra senão a de que Galindo sustentaria que música clássica e música sertaneja não coexistam (ou não precisaria clamar pela coexistência). Logo, uma delas deveria deixar de existir.
    Como, porém, Galindo NÃO sustenta o fim da música sertaneja, limitando-se a criticar que a orquestra tenha sido obrigada a fazer toda uma turnê com um programa quase exclusivamente sertanejo, concluiu-se que ele em nada ofende a coexistência da música de concerto e da música sertaneja.
    Se não for isso, o apelo à coexistência é ocioso e puramente retórico, pois o sertanejo já está em todos os cantos.
    Se a coexistência, porém, significar que orquestras precisam tocar sertanejo, volto à minha modesta proposta, para que as duplas sertanejas toquem Debussy. Se não o fizerem, ofenderão a coexistência, serão sectárias.
    Outro ponto: Ingrid afirmou que a opera era A música popular da Italia do século XIX. Volte ao texto, por favor. Isso está lá escrito. E não é verdade.
    Quanto ao número de peças brasileiras no programa atual da Orquestra Sinfônica do Paraná não chegar a um terço do programa, trata-se de dado irrelevante. Nenhuma grande Orquestra de qualquer país do mundo, salvo a Alemanha (e talvez a Russia) chega a 1/3 de compositores locais em seus programas. Nem a orgulhosa Orquestra de Paris. Repertório de Orquestra é para oferecer ao público boa música de concerto, não é para fazer patriotadas ou exaltar nacionalismos.
    Não ignoro o concerto com o Blindagem. Achei, à época, uma péssima ideia populista (como My Fair Lady, em 2019). Mas foi tolerável, pois era só UM concerto. No caso da música sertaneja, estamos falando de toda uma cara turnê. É muito diferente.
    Nada a criticar quando às pílulas de música popular durante a pandemia. Já defendi, em comentário ao texto do Galindo, que a orquestra pudesse tocar, de vez em quando, em contextos especiais, uma peça popular como bis, ao final dos concertos. É a balinha 7 Belo depois do banquete.
    De novo: isso é muito diferente de uma turnê sertaneja. Se fosse uma turnê de jazz ou MPB mereceria a mesma critica.
    O menosprezo aos músicos está, sim, presente no texto. Trata-se de dizer que fazem pouco. Iniciativas institucionais que ampliem a atuação da orquestra precisam ser acompanhadas de aumento de remuneração.
    Ademais, perdeu-se ótima oportunidade para uma turnê de concertos didáticos, que seria muito mais coerente com a função de uma orquestra do que o passeio pela música sertaneja.
    Por fim, com todo o respeito, não se trata só de questão de gosto. Esse é o argumento simplista de quem faz o elogio da ignorância, em um tempo de agudo filistinismo travestido de relativismo oportunista. Diferenciar cabanas e catedrais permanece importante.

  4. Parabéns, Ingrid, seu texto é instigante, abre um diálogo importante e nos provoca a repensar nossas próprias reações à diferentes repertórios. Acompanho sua coluna e sempre me acrescenta algo de muito bom, obrigada pela disposição de compartilhar sua perspectiva! Vou conferir esse concerto agora no início de junho e acredito que tem muito valor a disposição da OSP de executar gêneros diversos.

    O Plural é um dos poucos veículos de comunicação onde me atrevo a ler os comentários, porque costuma ser um ambiente mais salubre do que outros por aí. Achei constrangedor um dos comentários recentes e confiando na salubridade que esse veículo nos proporciona gostaria de abrir diálogo com o Carlos: onde essa coluna acusou o Galindo de sugerir “acabar com o sertanejo”?

    Acredito que coexistir, nesse caso, implica não considerar uma “insanidade indesculpável”, um “desplante”, uma “zombaria”, ou um desvio, seja da função da orquestra ou dos impostos pagos pelo seu público, o fato de 01 dos aproximadamente 10 repertórios diferentes da OSP programados para esse ano ser de música sertaneja.

    Existe muito a se criticar no nosso infelizmente atual governador, no oportunismo com o qual vários políticos utilizam as estruturas públicas de seus estados e em políticas que condicionam os investimentos em cultura ao seu retorno financeiro, certamente, mas é notável como o tom se eleva e o foco se desvia pra desvalorização de um gênero musical quando se trata de determinadas músicas.

    A OSP já fez um concerto inteiro com a banda Blindagem, como bem observaram nos comentários da coluna do Galindo, recentemente durante o período de pandemia também gravou Parabéns pra Você, Carinhoso do Pixinguinha, Cio da Terra de Chico Buarque, entre outras que provavelmente já passaram pelos programas ao longo dos anos e já me fugiram da memória – nada disso foi composto pra formação sinfônica, são arranjos adaptados, mas jamais foram recebidos com tamanha hostilidade.

    Bandas de rock ou Chico Buarque também enchem teatros com ingressos caros sem necessidade de financiamento do estado e não precisam ser tocadas por orquestras, o são porque o diálogo existe e é frutífero.

    Não vou comentar o uso da ironia ao se referir a musicistas de diferentes culturas e suas execuções de composições de outros contextos, e nem dos diversos usos do termo “popular” que se pode invocar quando se diz que a ópera era popular –na Itália– do século XIX, porque isso dá mais pano pra manga do que acredito caber aqui, mas pra abrir mais diálogo sobre uma parte que considero valer mais a pena: o referido comentário afirma que só considera raro a presença de compositores brasileiros no repertório da OSP quem desconhece seu trabalho.

    Pois bem, esse ano temos – aproximadamente porque eu contei rapidinho: 27 peças de compositores estrangeiros e 19 brasileiras – 11 delas sertanejas. Se o polêmico concerto sertanejo não estivesse na programação, como gostariam os que defendem chamá-lo de insanidade, seriam 8 peças brasileiras e isso seria pouco menos de um quarto do total. As mudanças de direção artística do grupo influenciam na frequência de compositores brasileiros na sua programação, é claro, mas – e posso estar errada, se os números me provarem isso não tenho problema de admitir – não me recordo de um período em que tenham ocupado mais de um terço da programação.

    Sua medida de raro pode variar porque essa, assim como “popular”, é uma palavra flexível em seus usos, mas definitivamente não é desconhecimento do programa que leva não apenas a maestra que escreve essa coluna mas também vários musicistas brasileiros a considerar que nossos compositores são pouco tocados em nossas orquestras.

    Não enxergo menosprezo pelo trabalho dos músicos no parágrafo que cita suas atividades em comparação com outras orquestras brasileiras, especialmente porque é reforçado que essa é uma orquestra jovem e também porque os instrumentistas, embora as executem, não definem a programação e as atividades da orquestra.

    Genuinamente não entendo que a comparação entre música sinfônica e música sertaneja seja defendida como algo não impulsionado pelo desprezo mesmo quando se pretende declaradamente qualitativa e é carregada de termos hostis, e que uma comparação breve entre atividades de orquestras estaduais brasileiras seja interpretada como menosprezo.

    Enxergo sim menosprezo, tanto pelos músicas tocando quanto pelo público assistindo, no considerar uma experiência como essa uma “condescendência” com a “capacidade” do público de apreciar “formas eruditas”.

    Enfim, nossas opiniões sobre o tema serão tão diversas quanto é a música em suas possibilidades. Anseio por uma relação de gêneros musicais que não se paute na competição entre qual é mais ou menos “catedral” ou “cabana”, enquanto musicista acredito de coração de não é essa a melhor e mais saudável forma da arte se relacionar internamente. Nossos gostos pessoais vão sempre nos guiar no que escolhemos prestigiar ou não, obviamente, mas pretender definir o que pode ou não ser tocado por uma orquestra da forma como foi feito me soa apenas arrogante.

  5. Toda cultura tem, sim, o direito de coexistir. Onde o Galindo sugeriu acabar com o sertanejo?
    Coexistir significa usar músicos com formação clássica para tocar sertanejo?
    Então, talvez devamos produzir a coexistência inversa. Nos shows sertanejos, o pessoal tocará Mignone, Brahms, Debussy. Ou é o amor, que mexe com minha cabeça, e me deixa assim?

  6. Texto constrangedor. Fico a imaginar que a autora (e o genial Thiagoson) também supõem que coreanos ou chineses toquem musica ocidental “com sotaque”, pois não há “pertencimento “. Yo Yo Ma, Sumi Jo, Yuja Wang estão no lugar (de fala) errado. A música dos EUA idem (pobre Bernstein). Sem contar o erro factual de supor que a opera era a “música popular” do século XIX, o que, além de desconsiderar a cultura popular otocentista, confunde o fato de a opera gozar de conhecimento mais amplo nessa época (em que as pessoas tinham melhor educação musical) com aquilo que emerge espontaneamente da cultura popular. Isso para não falar da desconsideração da diferença entre cultura popular e cultura de massa. Outro erro factual: compositores brasileiros sempre integraram o repertório da orquestra, em maior ou menor frequência, dependendo do maestro titular. Lembro dos tempos do Roberto Duarte, em que TODOS os concertos tinham uma obra brasileira. Mesmo hoje, os compositores brasileiros estão sempre presentes. Basta ver a programação da orquestra para ao inicio de 2022, antes dos ultrajantes “concertos sertanejos”, para constatar a presença de Ronaldo Miranda, além do Villa Lobos. Na última temporada pré-pandemia, mesmo com um maestro alemão, tivemos, além do Villa, Mignone, Camargo Guarnieri e Nunes Garcia. Quem afirma que compositores brasileiros são raros no repertório da Sinfônica é porque desconhece o trabalho da orquestra. Não se pode deixar de notar, ainda, o menosprezo pelo trabalho dos músicos da orquestra, que, com salários inferiores aos das orquestras citadas no texto, não deixam de fazer concertos didáticos (veja a programação dos anos anteriores, maestra), ou estrear obras novas. Muito ainda poderia ser dito sobre o valor intrínseco da música de concerto, sobre a diferença entre cabanas e catedrais, entre a alta literatura o texto do facebook ou do whatsapp, mas tudo isso seria ocioso nestes tempos em que é “feio” apontar diferenças qualitativas inerentes aos objetos de apreciação. Afinal, sertanejo ou Beethoven, tudo é música, não é?

  7. Texto constrangedor.
    Fico à imaginar que a autora (e o genial Thiagoson) também supõem que coreanos ou chineses toquem musica ocidental “com sotaque”, pois não há “pertencimento “. Yo Yo Ma, Sumi Jo, Yuja Wang estão no lugar (de fala) errado. A música dos EUA idem (pobre Bernstein).
    Sem contar o erro factual de supor que a opera era a “música popular” do século XIX, o que, além de desconsiderar a cultura popular otocentista, confunde o fato de a opera gozar de conhecimento mais amplo nessa época (em que as pessoas tinham melhor educação musical) com aquilo que emerge espontaneamente da cultura popular. Isso para não falar da desconsideração da diferença entre cultura popular e cultura de massa.
    Outro erro factual: compositores brasileiros sempre integraram o repertório da orquestra, em maior ou menor frequência, dependendo do maestro titular. Lembro dos tempos do Roberto Duarte, em que TODOS os concertos tinham uma obra brasileira.
    Mesmo hoje, os compositores brasileiros estão sempre presentes. Basta ver a programação da orquestra para ao inicio de 2022, antes dos ultrajantes “concertos sertanejos”, para constatar a presença de Ronaldo Miranda, além do Villa Lobos. Na última temporada pré-pandemia, mesmo com um maestro alemão, tivemos, além do Villa, Mignone, Camargo Guarnieri e Nunes Garcia.
    Quem afirma que compositores brasileiros são raros no repertório da Sinfônica é porque desconhece o trabalho da orquestra.
    Não se pode deixar de notar, ainda, o menosprezo pelo trabalho dos músicos da orquestra, que, com salários inferiores aos das orquestras citadas no texto, não deixam de fazer concertos didáticos (veja a programação dos anos anteriores, maestra), ou estrear obras novas.
    Muito ainda poderia ser dito sobre o valor intrínseco da música de concerto, sobre a diferença entre cabanas e catedrais, entre a alta literatura o texto do facebook ou do whatsapp, mas tudo isso seria ocioso nestes tempos em que é “feio” apontar diferenças qualitativas inerentes aos objetos de apreciação. Afinal, sertanejo ou Beethoven, tudo é música, não é?

  8. Perfeito, maestra. O artigo do meu amigo Galindo também me incomodou! Mas com suas palavras, fico muito satisfeita. “Toda cultura tem o direito de existir e coexistir “, ponto!

  9. Martinho Lutero Klemann

    Muito interessante a sua linha de pensamento, maestra Ingrid. Como músico de orquestra, não possuo ainda uma opinião formada a respeito. Por isso, obrigado por seu texto, rico em questionamentos, subsídios para minha reflexão sobre o assunto.

  10. Muito boa abordagem! Aqui, dentro da minha bolha, não tem sertanejo… Não permito,
    Mas é a minha bolha bolha né?
    Como é bom poder ter acesso a essa olhar Plural do tema!
    Parabéns Ingrid, parabéns Rogério!

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