No final de agosto, na sabatina do Jornal Nacional, o candidato Jair Bolsonaro assegurou que respeitará o resultado das eleições e, se derrotado, passará a faixa presidencial a seu sucessor. Mas fez questão de complementar: as urnas serão respeitadas “se a eleição for limpa e transparente”.
No começo dessa semana, fazendo campanha em Londres ao lado do pastor Silas Malafaia, foi o presidente Bolsonaro quem voltou a afirmar que se não ganhar as eleições, e no primeiro turno, “algo de anormal aconteceu”.
Em quem acreditar, no candidato que, mesmo com ressalvas, diz que respeitará as eleições, ou no presidente que considera “anormal” uma eventual derrota?
O histórico dos últimos quatro anos não deixa margem de dúvida. Bolsonaro ameaçou a democracia, inclusive promovendo manifestações de acento golpista em plena pandemia, atacou instituições e lançou sombras de dúvidas, especialmente ao longo desse ano, sobre a legitimidade e a lisura do processo eleitoral – o mesmo que o elegeu e três de seus filhos em sucessivas eleições.
A essas alturas, a poucas semanas do primeiro turno, ninguém tem o direito de duvidar das intenções golpistas de Bolsonaro, nada sutilmente reafirmadas na entrevista concedida ao SBT na capital inglesa. Uma disposição que só reforça a importância de que sua derrota seja incontestável, preferencialmente no primeiro turno, mas igualmente a enorme dificuldade a ser enfrentada pelo futuro governo.
Porque a derrota eleitoral de Bolsonaro não será a derrota do bolsonarismo, que seguirá ativo e atuante na esfera institucional, com a eleição de governadores e deputados ideologicamente alinhados ao atual mandatário, e fora dela.
Foi, inclusive, a necessidade de fazer frente a essa ameaça a motivação para a coligação liderada por Lula. Necessária e urgente, a candidatura do ex-presidente representa, a um só tempo, a esperança de retomarmos um ambiente político minimamente civilizado, e as incertezas em relação a um futuro que nada tem de alvissareiro.
Se é, hoje, a principal força capaz de derrotar Bolsonaro, a ampla aliança que sustenta a campanha de Lula expõe, ao mesmo tempo, o que talvez seja sua principal fragilidade. E o discurso de Lula no comício de sábado, 17, em Curitiba, a expressou claramente.
Nele, Lula falou de tudo e para todos, a começar pela urgência de garantir o acesso ao mínimo necessário à sobrevivência, comida na mesa.
Defendeu mais e melhores investimentos em educação e na saúde, do crescimento econômico e industrial, de infraestrutura, acenou ao agronegócio, exaltou a liberdade religiosa e afirmou seu compromisso na luta contra o racismo, o machismo e a homofobia.
Mas seu discurso, e essa tem sido a tônica da campanha, fala mais do passado que do futuro. Em outras palavras, parte dos eleitores de Lula votam nele motivados pela memória do pouco do que um dia já fomos e tivemos.
Compreendo e aceito que chegamos a um estágio em que isso basta para a disputa e a desejada vitória eleitoral. Só a tarefa de arrancar da miséria e da fome os milhões de brasileiros e brasileiras condenados a ela pelo desgoverno Bolsonaro, tarefa nada fácil e simples, já é suficiente para justificar o voto em Lula.
Mas talvez não seja suficiente para desmontar o legado nefasto de quatro anos de destruição. Conciliador hábil, ainda assim Lula terá dificuldade para levar adiante as políticas de conciliação que caracterizaram seus dois governos anteriores, tendo de enfrentar a sanha predatória de parte de nossas elites, escancarada com as políticas neoliberais de Paulo Guedes, e o poder de barganha do Centrão no Congresso Nacional, turbinado pela aliança com Bolsonaro, por exemplo.
Não apenas as condições, por assim dizer, objetivas – como o nosso eminente colapso econômico –, mas também o ambiente político, com o fortalecimento da extrema-direita, é radicalmente outro. Se interesses escusos talvez motivem determinados grupos a adotarem, também, uma postura conciliatória, não há dúvidas de que há uma militância capilarizada e enraizada disposta a tudo para manter a hegemonia bolsonarista.
No dia 2 de outubro escolheremos não apenas qual governo, mas qual país queremos. Um governo democrático e aberto ao diálogo é um bom começo. Mas não será suficiente. Agora mais do que nunca em nossa história recente, precisamos de movimentos sociais fortes e articulados e da politização de nossa esfera pública se quisermos, mesmo, que a esperança vença o medo, o ódio e a miséria, os principais legados de Bolsonaro.

