O jornalismo da Globo não será mais comandado por Ali Kamel. Os negros do país agradecem

Kamel deixou de entender simplesmente o fenômeno mais importante do Brasil contemporâneo, que é a luta para acabar com a hipocrisia racial

Uma vez caiu pra mim a tarefa de editar uma notícia sobre um tiroteio ocorrido em Maringá. O repórter era novato e deve ter pensado que era melhor ser cuidadoso. O texto falava das balas voando e de uma pessoa que de repente caiu sangrando na região abdominal. “Ainda não se sabe se as coisas estão relacionadas.”

A graça da história é que jornalismo não é só relatar fatos isolados, você precisa ter a capacidade de juntar lé com cré. Se dão um tiro e a barriga de alguém explode cinco metros adiante, seria ridículo imaginar que foi um alien saindo do estômago da vítima o causador do sangramento.

Eu estou longe de ser aquele crítico feroz e incondicional do jornalismo da Globo. Perto das emissoras rivais com seus Datenas e pastores, até acho que não é tão ruim. Mas, sim, vejo muitos problemas.

A partir desta semana, porém, é de esperar que um desses problemas suma. Porque esse problema atende pelo nome de Ali Kamel e acaba de ter sua saída da direção de jornalismo da Globo anunciada.

Kamel pode ter lá outros méritos, mas deixou de entender simplesmente o fenômeno mais importante do Brasil contemporâneo, que é a luta para acabar com a hipocrisia racial no país, com a ideia falsa e cruel de que tudo vai bem entre negros e brancos. Depois de três séculos e meio de escravidão e um século e meio de exclusão, os negros brasileiros finalmente vêm conseguindo algumas vitórias na arena pública ao mostrarem o que passaram e o que precisa ser feito para sermos um país menos cruel.

Um dos pontos cruciais para a diminuição da dívida do país com os negros é dar condições para que homens e mulheres em geral excluídos dos melhores empregos, das melhores profissões e da vida acadêmica possam frequentar a universidade.

Em 2007, um ano e pouco antes de assumir o jornalismo da Globo, Kamel escreveu um pequeno best-seller com argumentos contra as cotas raciais nas universidades. Os argumentos são previsíveis: o país não tem um Apartheid, e portanto os negros já têm possibilidade de acesso ao que for; e o Brasil é basicamente miscigenado, portanto nem faria sentido falar em uma divisão entre negros e brancos.

Não é preciso dizer que Kamel não é nem negro nem pobre. Que vê a questão do ponto de vista de quem foi privilegiado e jamais passou pela exclusão sofrida pelos negros no Brasil. E, desculpem, esse é o tipo de problema que só entende quem vive.

A acusação mais grave do livro era que estavam plantando o ódio racial no Brasil. Curiosamente o mesmo argumento usado pelo estado deputado federal Jair Bolsonaro contra as cotas (ele dizia também que estavam usando os negros de “laranja” e “enganando” as pessoas, fazendo com que elas acreditassem que iam poder estudar).

Kamel nunca soube o que é o ódio racial no Brasil porque não é negro. O ódio que ele teme já existe, e mora debaixo da pele de uma quantidade imensa de brancos; também habita a mente de muitos negros que, com razão, detestam as circunstâncias sociais em que nasceram.

Todos os dados, toda a vida nacional desmente a falácia de Kamel e dos teóricos da pacificação racial nos termos em que já vivemos. Mas isso não importa, nunca importou. O que se queria era impedir a ascensão social de quem sempre foi excluído, simples assim.

Um homem como esse no comando do jornalismo de uma emissora é a garantia de um debate tristemente torto, que não dá espaço para que se perceba a dor diária de milhões. É alguém que vê balas perdidas o tempo todo atingindo crianças negras e diz que “não há como saber se as coisas estão relacionadas”.

Agora é torcer para que o substituto se saia melhor. O povo preto do Brasil agradece.

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