Militarização, terceirização, homeschooling: o que Ratinho fez na educação

Gestão de Ratinho e Renato Feder desagradou professores e aprovou projetos criticados pela pedagogia

Fim de governo é sempre um momento propício para fazer um balanço do que uma gestão fez em cada área. Nos próximos dias, o Caixa Zero vai fazer uma análise de como o governo Ratinho Jr. (PSD) atuou em algumas das principais atribuições do governo do estado. Para começar, vamos falar de uma das áreas mais importantes possíveis, a educação.

O trabalho de Ratinho e de seu secretário da Educação, Renato Feder, foi marcado por algumas decisões polêmicas, como a militarização de parte das escolas e a terceirização. O governo, por sua vez, comemora bons resultados no Ideb e a implantação da primeira parte do programa Ganhando o Mundo, que enviou alunos para Canadá e Nova Zelândia.

1. Militarização

Não foi só o Paraná que optou por aderir ao programa lançado pelo governo federal das escolas cívico-militares. A ideia, segundo os defensores, seria criar um ambiente mais disciplinador e hierarquizado, em que a educação evitasse a suposta “doutrinação” de esquerda. Os alunos seriam incitados a ter um comportamento mais conservador e isso hipoteticamente refletiria em melhores resultados no aprendizado.

Além de a própria ideia de militarizar o ensino público ser altamente questionável, o programa começou torto. As consultas feitas nas escolas para saber se a comunidade queria a militarização foram feitas às pressas durante a pandemia, muitas vezes com quórum baixo e sem que os pais tivessem sido informado devidamente sobre o que estava implicado no processo.

Depois de implantada, a militarização de 199 escolas também resultou em problemas sérios, com casos de violência por parte dos militares, assédio a alunas e denúncias graves de má conduta dos PMs. O ensino também é objeto de questionamento, com conteúdos, por exemplo, sobre como funciona a hierarquia militar que não parecem apropriados nem necessários para as crianças.

2. Terceirização

A terceirização de parte do processo educativo foi sendo aprofundada pelo governo Ratinho ao longo da gestão. Dois pontos foram particularmente prejudiciais para a educação. Um deles é a troca de funcionários contratados diretamente por empresas que fazem o fornecimento de pessoal. Isso ocorreu em áreas que são tratadas por lei como parte do processo educativo: inspetoras, merendeiras e funcionários de outras áreas passaram a ter esse tipo de contrato.

Além de diminuir o vínculo entre alunos e profissionais da escola e de colocar processos educativos nas mãos de pessoas sem ligação com cada colégio, o custo também foi alto. Em entrevista na RPC, a repórter Carolina Wolf demonstrou, diante do governador, que o custo com o novo sistema de terceirização não só não diminuiu como aumentou em R$ 200 milhões, o que parece ser injustificável. Ratinho rebateu dizendo que com isso o governo evitaria falsos atestados de profissionais que, segundo ele, seriam recorrentes e atrapalhariam o bom funcionamento das escolas – declaração que, obviamente, só irritou ainda mais os profissionais da educação.

Outra terceirização importante se deu no ensino médio, com a contratação da Unicesumar, por R$ 38 milhões, para assumir parte do novo currículo do ensino médio. O grupo privado fornece aulas a distância, e a Secretaria da Educação chegou a afirmar que a responsabilidade pelos resultados é da terceirizada.

3. Ganhando o Mundo

Uma das principais “joias da coroa” do governo Ratinho na educação é o programa Ganhando o Mundo. Adaptado de outros governos estaduais, o projeto prevê a ida de professores e alunos com bom desempenho para outros países. Além de servir como prêmio, o intercâmbio seria uma oportunidade de aprofundar o conhecimento.

Em função da pandemia, só a parte dos alunos saiu do papel até o momento. No primeiro semestre deste ano, 100 alunos foram enviados para o Canadá, em diversas cidades. No segundo semestre, a parceria começou com cidades da Nova Zelândia. A partir do ano que vem, em caso de reeleição de Ratinho, existe a promessa de dar início ao programa com os professores de melhor desempenho.

O retorno dos alunos para o Brasil, no entanto, foi marcado por problemas – embora as falhas apontadas pelos pais tenham sido negadas pelo governo.

4. Ideb

O governo do estado comemorou ou fato de o Paraná aparecer em primeiro lugar no Ideb nacional do Ensino Médio. Antes da pandemia, no início do governo Ratinho, o estado estava na terceira colocação no país. No entanto, no ensino fundamental o Paraná piorou uma posição no ranking brasileiro, caindo da terceira para a quarta posição.

5. Homeschooling

O governo Ratinho também deu apoio a dois projetos que, no mínimo, são polêmicos. De um lado, deu liberdade para que sua base apoiasse o “Escola sem Partido”, que previa monitoramento e censura dos professores para inibir uma suposta “doutrinação esquerdista” dos alunos.

Por outro, Ratinho foi um dos dois governadores a sancionar leis de ensino domiciliar no país. O “homeschooling”, criticado pela pedagogia e por cientistas da área de humanas em geral, chegou a valer no estado antes de a evidente inconstitucionalidade da lei paranaense ser decretada pelo Judiciário.

5 comentários em “Militarização, terceirização, homeschooling: o que Ratinho fez na educação”

  1. Um curso de 40 horas ofertado na modalidade EAD pela SEED-Ratinho, tem peso maior do que uma especialização de 800 horas ou uma conclusão de mestrado ou doutorado. Surreal!!
    Inacreditável!!
    Caos na educação pública fo Paraná!

  2. Sou professora aposentada do Estado do Paraná. Infelizmente Ratinho e seu secretário de educação esqueceram de valorizar seus professores com aumento de salário. Benificiaram uma categoria de professores e as outras com mais tempo de serviço e aposentados ficaram sem aumento. Aposentado na hora de mais precisão, remédio, doenças, sequelas da profissão sem aumento a 4 anos. Uma vergonha pro Paraná.

  3. Eu deveria estar trabalhando e me prendi aqui...

    O título do texto é: “o que Ratinho fez na educação”. Os pontos do texto resumem tudo o que foi feito na Educação ou é apenas aquilo que o analista entende como equivocado na Educação? Noves fora os problemas apontados acima, o restante foi bom? Ou não sobra nada? Nenhum avanço? Nosso pequeno Stuart Little não entregou absolutamente nada, nadica, de útil?

  4. Excelente relato das pretensas realizações deste governo na educação públicas do estado. Fica evidente que, em qualquer uma dessas ações, a única preocupação é a publicidade. Nada é o que parece ser; tudo é apenas fachada. Por trás dessa fachada, há ainda um currículo escolar que foi completamente desmatelado, anulando os esforços de professores e comunidades que protagonizaram um currículo que distinguia a educação do PR nacionalmente. Reduzida a números a educação apequena-se. Formar cidadãos não é tarefa que se pode relegar a empresários. Civilidade não se adquire no mercado, nem se alcança com armas.

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