O Brasil nunca ganhou um Nobel. Algumas vezes bateu na trave, como no caso famoso de César Lattes. Em outros casos, acredito que a pessoa mereceria, mas não foi escolhida, pelo menos até agora. Caso do grande Miguel Nicolelis, por exemplo.
Nos prêmios de ciências temos mais dificuldades porque o país investe muito menos do que as superpotências – não é à toa que a imensa maioria dos premiados ou é americana de nascimento ou se mudou para os EUA. Mas nos dois prêmios “não científicos” acho que já devíamos ter ganhado mais de uma vez, e acredito que não vai aqui nenhum ufanismo tolo.

No caso da literatura, houve alguns candidatos levados super a sério, como Drummond e João Cabral de Mello Neto. Nos últimos anos, porém, só Ferreira Gullar aparecia, e mesmo assim no pé da lista. A barreira da língua não facilita: mesmo Portugal, que supostamente teria mais facilidade por ser um país europeu, só emplacou Saramago até hoje.
Nobel da Paz
Mas vamos ao Nobel da Paz, que deve ser revelado nesta sexta-feira. Aqui há todo o espaço para candidatos de países mais pobres – até porque é nesses países que muitas vezes aparecem pessoas que fazem uma diferença imensa na vida dos mais necessitados. Caso de Madre Teresa e Desmond Tutu, para ficar nos clássicos exemplos religiosos, ou de Nelson Mandela, Rigoberta Menchú e Malala, para citar exemplos laicos.

O Brasil já teve religiosos que mereceram e muito a premiação, especialmente no caso daqueles que tiveram papel importante de confronto à ditadura. Pense num Cardeal Arns ou num Hélder Câmara, por exemplo. E hoje temos um belíssimo trabalho com moradores de rua feito por outro religioso, em outras circunstâncias.
Não vejo absolutamente nenhum motivo para que o Padre Júlio Lancellotti não viesse a ser o escolhido para receber o Nobel da Paz. Neste ano ou em outro qualquer. O exemplo dele de amor ao próximo, de dedicação aos mais pobres, de esforços contínuos e altruístas para melhorar a vida de quem mais precisa é algo que deveria ser conhecido e espalhado pelo mundo todo.

Mas há outros belíssimos exemplos. O trabalho na defesa da Amazônia e dos povos indígenas já levou Raoni a uma indicação. Maria da Penha, também já indicada ao prêmio, com sua luta contra a violência doméstica, batizou a lei mais importante do país para proteção das mulheres de que tenho notícia. E Alysson Paulinelli, que já foi indicado por seu esforço, como agrônomo, para diminuir a fome no país e no mundo.
Isso sem falar em trabalhos coletivos, como a rede de voluntários que faz a Pastoral da Criança, por exemplo.

Seria um respiro ver algum desses belos exemplos de cidadania e amor reconhecido. Num momento em que o país mergulha no ódio, a exposição no mundo todo de um símbolo da paz vindo do Brasil seria um sopro de esperança.


parabéns pelo comentário. Concordo plenamente.