O jeito de tirar votos de Bolsonaro? É a hipocrisia, estúpido

Jair Bolsonaro: a criptonita dele se chama pedofilia

Todo mundo tem sua criptonita. Se parece que um político resiste a qualquer denúncia, o motivo é um só: ainda não acharam o ponto fraco do sujeito. Mas o ponto fraco existe sempre. E normalmente nem é tão difícil descobrir qual é. Curiosamente, a esquerda vem demorando muito para perceber o evidente ponto fraco de Bolsonaro.

O atual presidente já foi chamado de tudo, e basicamente não liga. Diga que ele é fascista, ditador, genocida e ele mal vai erguer a sobrancelha. Isso não lhe tira votos. Jogue na cara que ele é autoritário, grosseiro, antidemocrático e é capaz de ele rir – em parte foram esses defeitos que o levaram até onde está.

Você pode até provar por a mais bê que a gestão da pandemia foi catastrófica, que a omissão do governo matou gente. Pode demonstrar de maneira irrefutável que as pessoas estão sem emprego, passando fome. Pode mostrar vídeos em que ele ameaça mulheres, fala em estupro, diz que vai comer carne humana – não acontece nada.

É como no caso de Trump, que dizia com orgulho: ele podia dar um tiro em alguém no meio da Quinta Avenida e não aconteceria nada. Bolsonaro, não com um tiro, mas com a falta de vacinas, matou centenas de milhares e nada aconteceu.

Mas a criptonita existe. E o próprio presidente disse qual é.

Pedofilia

No sábado Bolsonaro não dormiu sem correr para uma live. Disse que passou 24 horas terríveis. Surtou, dizendo que dessa vez tinham passado de todos os limites. Jurou que não tinha dito o que disse. Mobilizou as tropas. Comprou anúncios na Internet às pressas. Por quê?

Não era nenhuma acusação de roubo, rachadinha, compra de imóveis com dinheiro vivo. Nada a ver com pandemia. Nenhuma novidade sobre sua ligação com milícias.

O ponto é que ele estava sendo chamado de PEDÓFILO. E isso ele não pode admitir.

Claro que existe sempre mais de uma explicação para a eleição de um presidente. No caso de Bolsonaro, tem a ver sim com a suposta “honestidade” dele quando comparado com os políticos pelo com a Lava Jato. Algo que hoje é risível, claro. Mas não é só isso: ele sempre tentou encarnar o personagem do conservador. O homem que luta pela família, pela pauta dos costumes.

Bolsonaro foi eleito principalmente porque uma imensa parcela do país acha que democracia é sinônimo de bagunça (serviços que não funcionam, políticos corruptos, risco de “venezuelização”). Ele foi eleito por gente que quer uma impressão de ordem. Gente que precisa acreditar que as coisas estão sob controle. Que existe alguém cuidando para que o caos não se instale.

O personagem de Jair Bolsonaro é esse. O de alguém durão, treinado nas Forças Armadas, que tem valores tradicionais e que não vai deixar nada de errado acontecer com a sua família. Ainda que ele precise fechar o Congresso (esse antro de corrupção), bater de frente com o Suprem o (essa inutilidade) e comprar briga com a imprensa (esses mentirosos esquerdistas), o capitão do povo estará lá para defender sua família.

Essa foi a ficção montada (apesar de o histórico do candidato ser o oposto disso em vários momentos, mas essa é outra conversa). E Bolsonaro precisa viver o personagem, principalmente diante dos milhões de evangélicos que depositaram nele seu voto.

E o homem dos valores tradicionais pode falar em estuprar (ou não) uma petista, porque petistas são mesmo uma gente horrível na cabeça desse eleitor; pode até não comprar vacina, porque afinal as vacinas, acredita boa parte do eleitorado, são ou inócuas ou perigosas. Mas pedofilia não.

Dizem que o marqueteiro de Bill Clinton, quando finalmente percebeu a fragilidade de George Bush, brigou consigo mesmo. “É a economia, estúpido!” No caso de Jair, está na hora da mesma descoberta. A criptonita dele é a falsidade de seu conservadorismo. É a hipocrisia, estúpido.

1 comentário em “O jeito de tirar votos de Bolsonaro? É a hipocrisia, estúpido”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Plural se reserva o direito de não publicar comentários de baixo calão, que agridam a honra das pessoas ou que não respeitem níveis mínimos de civilidade. Os comentários são moderados por pessoas e não são publicados imediatamente.

Rolar para cima