A gente passa a infância inteira dos filhos garantindo para eles: monstros não existem. E no entanto, na primeira noite após o parto da minha caçula, ela foi embalada por um pai nervoso, à beira da incredulidade, com a possibilidade de um monstro (um monstro de verdade) assumir o comando do país. Era a noite do primeiro turno, em 2018.
Com a Gabriela no colo, eu olhava a tevê na maternidade, torcendo para o monstro não chegar a 50% dos votos. Eu não podia acreditar que nossa família, que acabava de ficar completa, ia viver num país governado por um sujeito daqueles, que adorava tudo que há de pior: tortura, ditadura, milícias, grupos de extermínio, intolerância, morte.
A noite terminou com uma esperança de que era possível parar aquilo. Haveria um segundo turno. E eu passei as três semanas seguintes, como tanta gente, tentando mostrar para as pessoas o risco real que corríamos. Não foi suficiente. Em 28 de outubro, o monstro ganhou. Em 5 de novembro, com uma filha de quatro semanas, fiquei desempregado.
O que se seguiu todos sabemos. O monstro cobrou a vida de 682 mil pessoas infectadas por um vírus. Pôs nas garras da fome 33 milhões de pessoas. Colocou na fila do emprego mais de uma dezena de milhões de brasileiros. E pôs sob a sombra do ódio os 213 milhões de brasileiros. Ódio, devastação, doença, crimes, mentiras – todas as provas de que monstros existem se abateram sobre nós.
Neste domingo, depois de uma descida ao inferno que nos custou muito do pouco que tínhamos (e que quase nos custa a própria democracia), a população decidiu dar um basta. Foi apertado. Mas foi importante, e foi lindo. Fomos mais de 60 milhões de brasileiros que escrevemos numa cédula a palavra: “Chega”. E escrevemos na cédula a palavra: “Amor”, ganhando daqueles que escreveram “Ódio”.
Não sabemos o que vem pela frente. Mas pela primeira vez, minha caçula vai viver num país em que os monstros existem – mas estão fora do poder. Um país em que a noite, a longa noite de quatro anos em que vivemos, está superada. Um país em que há uma luz, há ar e há uma chance de voltarmos a sermos um país feliz.


Li seu texto emocionada… Os olhos marejados e um nó na garganta! Vc definiu o que foram esses quatro anos de escuridão, de trevas… Que bom que o amor venceu e que ainda é possível restabelecer a esperança, “do verbo esperançar”!!
Viva a democracia!!!
Rogério, seu texto é incrível. Como sempre, verdadeiro e fascinante!
Parabéns! É um privilégio ler o que vc escreve!
Parabéns também ao Arandi pelo comentário! Perfeito!
Que texto extraordinário, arrebatador!!!! Parabéns 👏👏👏👏📖📖📖
Prezado Rogério,
Em 04/09/2018, você escreveu “A candidatura de Jair Bolsonaro é imoral e inaceitável numa democracia”. Leram. Lemos. Li e guardei. Permita-me reproduzir alguns trechos do seu texto:
“Por uma série de circunstâncias, há uma candidatura entre as favoritas que é absolutamente inaceitável do ponto de vista democrático. E este blog acredita que é, sim, seu papel, alertar para o risco que a democracia brasileira corre neste momento. É evidente que estamos falando de Jair Bolsonaro.”
“Bolsonaro é uma triste exceção, que precisa ser destacada… Sua vitória, improvável, mas possível, seria trágica.”
“Eliminados todos os outros, fica claro que Bolsonaro só considera dignos de seu respeito como iguais os homens brancos heterossexuais que pensem como ele.”
“O candidato, além de tudo isso, é visivelmente despreparado. Não entende de nenhum dos problemas de fato do país.”
“O que temos não é muito. Mas levou décadas para construir. Jair Bolsonaro significaria uma política de terra arrasada. Perder o pouco que temos em nome de um protesto não faz o menor sentido. É preciso parar com essa loucura já antes que ela traga consequências ainda mais trágicas para o país.”
Pois é. Ainda que eu não conheça muito bem essa história, parece-me que seu sofrimento pessoal também repercutiu na criação do Plural (revoravoltas da vida e sorte nossa, que temos jornalismo contemporâneo de primeira, a partir de Curitiba).
Acredito que os grandes jornalistas não escrevam com o propósito de estar certos ou de “ter razão”. Ainda assim, permita-me destacar que, sim, você estava certo em 2018. Você tinha razão. Em meio àquela tristeza, na então falsamente louvada “república de Curitiba”, ante ao que se anunciava como este delírio coletivo suicida que nos acometeu, havia nestas terras um verdadeiro jornalista. Sendo seu leitor e leitor assíduo do Plural, acredito que seja o caso de deixar aqui um abraço. Pra você e pra família.
“Amor” é uma palavra tão boa de ler e escrever!
Adultos, sabemos que os monstros podem encarnar. Então, trabalhamos por “um país em que há uma luz, há ar e há uma chance de voltarmos a sermos um país feliz.”
Hoje, acordamos com esta bela imagem de um pai embalando a filha recém-nascida. Amor é uma palavra linda demais.
Abraço de esperança.
Foi lindo isso! Tenho um filho jovem e tenho desejo imenso que essa juventude tenha esperança e tenha um futuro lindo.
Galindo….só vc para materializar a sensação de sair de um pesadelo….foi difícil…mas o amor venceu…..