Jair Bolsonaro levou 44 horas para escrever um discurso que, supostamente, deveria ser o reconhecimento de sua derrota. Não conseguiu. Até porque não se pode exigir de alguém algo que a pessoa é incapaz de entregar. E para reconhecer a derrota, o atual presidente teria que ter um mínimo de apreço pela verdade e pela democracia.
Mas o mundo real não é a fantasia alucinada do WhatsApp. E Jair sabe que perdeu e, mais do que isso, que já foi escanteado por quem podia lhe dar apoio. Acabou. E ele tinha de dar um jeito de falar isso em bolsonarês.
O discurso basicamente foi um jeito de agradecer os votos (ótimo, faz parte), pedir que liberem as estradas (não sem uma cutucada na “esquerda”, que nada teve a ver com isso) e de deixar pra trás a eleição sem dizer exatamente: “Perdi”. Se recusou a dizer o nome de Lula, como se fosse anátema, e deixou implícito que voltará (ao falar que está mais forte do que nunca).
Bolsonaro, o covarde
Mas o que nunca faltou a Bolsonaro foi covardia. E por isso, além de botar a culpa da derrota em “injustiças” (quais?), deixou a admissão mais clara da derrota para Ciro Nogueira, uma espécie de adulto responsável que cuida do presidente. Ciro disse que dará início à transição e chamou Lula de presidente. Sua língua não incendiou depois disso, provando que é possível fazer uma admissão de derrota sem dor ou sofrimento.
Depois disso, Bolsonaro é passado. Acabou o seu governo. Resta cumprir o aviso prévio. Agora, o que a democracia brasileira precisa é cuidar para que ele nunca mais volte. Amém.

