Definir o que é uma boa formação é tarefa difícil. Educação é um dos temas mais complexos e multifacetados que existem. Por isso mesmo o debate da educação é quase sempre tenso e, no pior sentido, apaixonado.
Nos 20 anos que trabalhei como professor do ensino superior, sempre valorizei um aspecto menos óbvio da boa formação. Para mim, conhecer mais é, entre muitas riquezas, expandir a nossa sensibilidade. Ela pode parecer somente um valor poético ou abstrato, mas para mim a sensibilidade tem uma utilidade decisiva. Nas minhas apostas, entendo que quanto mais somos capazes de nos encantarmos com o que nos cerca, maiores são as nossas chances de alegria, de contemplação e de garantir saúde mental.
Claro, no limite, ingenuidade à parte, a vida é uma notória história de som e de fúria, carente de sentido. Mas neste pouco tempo que temos, a beleza das coisas me parece parte mais do que fundamental. O paradoxal é que à medida que envelhecemos, mais percebemos como o encantamento pode estar nos detalhes mais discretos: uma palavra surpreendente, um encontro inesperado, um sabor original.
Lembro que nas minhas primeiras aventuras fora do país, ainda muito jovem e muito rústico, o que realmente me motivava a sair de casa era encontrar a exuberância mais colossal da natureza. Eu não entendia como é que alguém pudesse, por exemplo, viajar para experimentar uma comida diferente ou se deliciar com um idioma que não o nosso. Leva-se tempo para que a gente se convença da majestade do cotidiano mínimo.
Na minha história de sensibilidade, houve uma transformação importante. Depois que me casei com uma florista, nunca mais vi as plantas e as flores da mesma maneira. E o que antes eram passeios secundários de viagem, tornaram-se destinos importantes: parques, jardins botânicos, floriculturas, praças e bulevares. Até mesmo o jardim bem cultivado de uma casa pode me trazer pequenas alegrias.
Minha última viagem, em janeiro deste ano, foi ao Uruguai. E um dos destinos que mais me encantou foi um lugar praticamente desconhecido pelos brasileiros: o Parque Nacional de Santa Teresa, próximo do balneário de Punta del Diablo. Ali há um pouco de tudo: áreas de camping, um forte português, diversas praias, trilhas e campos para observação de pássaros. Mas há um destaque especial para as plantas. São mais de dois milhões de árvores, distribuídas em mais de 3.000 hectares. E com alguns caprichos: há um cactário, um invernáculo, um sombráculo, um rosedal e múltiplos espaços que mostram a flora tropical dos cinco continentes. Foi no rosedal que me deparei com uma cena surpreendente: militares uruguaios cuidando de rosas.

Sim, porque o Parque Nacional de Santa Teresa é administrado e cuidado pelo exército uruguaio. A gente anda pelo parque e vê soldados em fardas camufladas e coturnos bem engraxados com regadores, tesouras para a poda, sacos de adubo e enxadas. Para quem está acostumado a associar a história dos militares da América Latina com a sombra de ditaduras violentas e golpes de Estado, ver um militar obstinado em deixar uma roseira impecável parece uma alucinação, um personagem fantasma de algum livro de Gabriel García Márquez.
Arrisco cá com meus botões: não será este o segredo do desenvolvimento do Uruguai? Como sabemos, o Uruguai atual é um país muito mais bem resolvido e pacífico que a média do continente. Não será a sensibilidade uma condição necessária para que um projeto mínimo de civilização seja possível?



Delícia de reflexão, André! A sensibilidade para o simples é tempero de poucos; já quero ir ao Parque Nacional Santa Teresa.