E se houvesse um teleférico no Pico Paraná?

Nesta semana, depois de 25 anos, voltei a acampar. Aluguei equipamentos de camping (há um excelente artigo da Rosiane Freitas, aqui no Plural, sobre as empresas que prestam o serviço […]

Nesta semana, depois de 25 anos, voltei a acampar. Aluguei equipamentos de camping (há um excelente artigo da Rosiane Freitas, aqui no Plural, sobre as empresas que prestam o serviço em Curitiba) e parti para a Serra do Ibitiraquiri, onde fica o ponto culminante do sul do Brasil, o Pico Paraná, com 1.877 metros.

Acampei sozinho no Pico Caratuva, 1.860 metros, segunda maior montanha do sul, com uma vista espetacular do Pico Paraná, e que demanda uma escalaminhada que pode durar mais de quatro horas. Eu estava pesado, levando além do material de camping, vários equipamentos de fotografia. Demorei seis horas para chegar no cume, um tempo ruim, mas considerando minha idade (estou próximo dos 50 anos) e o peso da mochila, estava dentro das minhas expectativas.

A experiência foi deslumbrante. Ficar sozinho sob um céu estrelado, somente ouvindo os barulhos da natureza, não é algo trivial no nosso mundo. É um encontro consigo mesmo – uma forma de despressurização que sempre me fez gostar de ir para o mato.

Mas é também uma atividade de exaustão. Mesmo estando bem condicionado, cheguei ao cume próximo do meu limite físico. Ainda que tecnicamente o Caratuva não exija nada complicado, não é difícil se perder na trilha – eu mesmo já me perdi algumas vezes nas trilhas da Mata Atlântica. A subida durante muitas horas entre galhos, raízes e barro também vai fazer com que você provavelmente chegue imundo ao cume. E o cume não tem nenhuma estrutura – não há um refúgio, um ponto de água ou um banheiro. O sinal de celular é bem fraco e funciona de modo imprevisível em um cantinho muito específico. A serra do Ibitiraquiri fica no Parque Estadual Pico Paraná – mas, apesar de ser um parque, a infraestrutura disponível é quase zero.

Em resumo, a atividade nas montanhas brasileiras é uma atividade para poucos. É preciso preparo físico e mental, levar equipamentos que não são baratos e ter o gosto pelo mato e pela aventura – gosto que a grande maioria das pessoas não tem. Eu estava em um dos lugares mais extraordinários do Brasil – mas completamente sozinho. Será justo isso?

Na minha juventude, eu responderia que sim – para preservar, é preciso deixar o acesso difícil ou negá-lo. É um argumento parecido, por exemplo, que justifica impedir o asfaltamento até Guaraqueçaba. Mas descobri que este argumento tem um problema: o resto do mundo funciona de outro modo. Hoje estou convencido de que a solução precisa ser diferente.



Dolomitas, região dos alpes italianos que é Patrimônio Mundial da Unesco

No século XIX, quando os Parques Nacionais foram inventados nos Estados Unidos, havia dois objetivos muito claros. Um objetivo, sim, era a preservação. A ideia era impedir que santuários ecológicos fossem destruídos pela urbanização e pela industrialização. Mas havia também um outro objetivo: o parque era, como o próprio nome diz, um parque público, um lugar de visitação. E isto significa providenciar uma infraestrutura mínima para que a visita seja possível.

Hoje, quem visita um Parque Nacional nos Estados Unidos conta com uma infraestrutura que não tem paralelo com os parques brasileiros. Há áreas de camping, de hotelaria, locais de comércio e asfalto – tudo planejado com a preocupação da sustentabilidade, procurando resolver o delicado equilíbrio entre o turismo e a preservação. Sim, é um equilíbrio difícil, mas antes a busca deste equilíbrio do que simplesmente impossibilitar que as pessoas possam desfrutar do encontro com a natureza. Até porque este encontro facilita, e muito, convencer a população de que a preservação é importante.

Para não ficar somente em exemplos americanos, chilenos e argentinos também buscam este equilíbrio. Quem visita os parques da Patagônia terá opções distintas de visitação – há desde hotéis de luxo até os acampamentos nas trilhas de trekkings. Mas o trekking é muito mais bem servido do que aqui: há refúgios, sinalização e informação melhores, áreas de camping com infraestrutura para banho e cozinha.

Na Europa, a região dos Alpes pode ser uma região de escalada – aliás, esta é a origem da palavra alpinismo. Mas é também uma região de uma cultura própria, que nunca negou o turismo. Nas Dolomitas, alpes italianos que fazem parte do Patrimônio Mundial da Unesco, é possível conhecer as montanhas escalando. Mas é também possível subir de teleférico – há tantos teleféricos por lá que você pode até comprar um passe universal de vários dias. No alto das montanhas costuma ter refúgios, restaurantes e banheiros. E então acontece algo que é inimaginável nas montanhas brasileiras: as Dolomitas permitem a inclusão. Casais com carrinhos de bebê, crianças, gente com dificuldades de locomoção, pessoas mais idosas, o povo urbano que não gosta de aventura – todos podem contemplar o espetáculo de um dos lugares mais extraordinários do mundo.

Se eu estivesse na minha juventude e lesse este texto, provavelmente eu iria cancelar o autor. Hoje, cada vez mais tenho desconfiança de planos para o mundo que partam do princípio em que a única solução é odiar a humanidade.

7 comentários em “E se houvesse um teleférico no Pico Paraná?”

  1. Quando era jovem, frequentei as trilhas e montanhas da Serra do mar paranaense semanalmente por muitos anos.
    Por questões diversas estive ausente por pelo menos 15 anos e recentemente, uns 2 anos atrás, tive a oportunidade de aproveitar novamente essa maravilha de atividade.
    Por óbvio, após anos parado, reiniciei a partir das trilhas mais fáceis, evoluindo semanalmente para trilhas mais complexas ou que demandam maior esforço para a subida e qual foi o choque tomado.
    Grupos gigantescos de pessoas que não possuem a “cultura montanhista” tal como me recordava. Entre outras condutas inadequadas, o que mais incomoda são os aparelhos de som. Aos montes, mal se pode distinguir de onde as musicas vem. Misturadas, torna-se um grande barulho desconexo e desagradável. Numa oportunidade, aguardando para acessar as escadas em um desses locais, um grupo de pessoas resolveu parar, fazendo poses para fotos nas escadas, enquanto filas de pessoas se formavam aguardando para subir ou descer por aquela única via disponível, sem se importar com os demais,
    Quanto mais difícil o percurso, menor a incidência desse tipo de usuários. O que me levou a deixar de visitar as trilhas mais fáceis.
    Portanto, senhor autor, quem procura essas trilhas com menor infraestrutura não as frequenta apenas pela paisagem ( algumas trilhas menores ou mais fáceis apresentam vista similar, e até melhores, que a do Caratuva) mas pela imersão e sintonia com a natureza e pela satisfação do desafio superado.
    Sugiro ao autor que visite o Morro do Canal ou o Anhangava em um final de semana ou feriado a fim de reavaliar sua opinião. Nesses locais de “fácil” acesso e melhor estruturados o Sr. jamais conseguiria registrar o céu noturno da forma apresentada na matéria.

  2. Perfeito.
    Eu perdi um irmão que acabou morrendo nessa montanha. E muito disso pela falta de estrutura do local, por essa visão estúpida de que não se pode mudar nada na natureza, que tudo tem que ficar como no século xix.
    Acho que deveriam pavimentar as trilhas, fazer placas decentes, serviço médico e até um teleférico, afinal será que crianças e idosos não podem ter essa acesso acesso a essa vista?
    Eu sei que é um comentário inútil e que não vai mudar a mentalidade miope e egoísta dos ambientalistas de plantão.

  3. Ah Claro! Quer um quiosque com açaí e capuccino também? Uma pergunta: quanto de fauna e flora nativa havia nos picos cheios de infraestrutura que você foi na gringa? E o que eu sempre vejo são gringos boquiabertos com a riqueza natural desses picos por aqui. Esse equlíbrio não existe pois a balança vai pesar pro lado do dinheiro. Me mostre um exemplo desse modelo que você sugere onde a preservação é mais importante que o lucro e eu apago meu comentário. Era só o que faltava. Praça de alimentação no cume da montanha! Plural dando espaço pra esse absurdo ainda por cima.

  4. Quer conforto e comodidades? Vai passear no shopping! Por isso os montanhistas brasileiros são respeitados no exterior, pelo simples motivo de serem casca grossa. Imagine um teleférico na Cascata de Gelo no Khumbu? Os teleféricos nos Alpes dão acesso a alguns lugares apenas, mas não até o cume do Mont Blanc ou do Cervino.

  5. Exatamente. Montanhistas, ambientalistas e técnicos dos órgãos ambientais não pensam assim. Para eles este tipo de experiência não Pode ser vivida por pessoas comuns, como cadeirantes, idosos, grávidas, crianças pequenas, etc.
    Argumentos contra nunca falta: lixo, erosão, comprometimento de habitats, perda de espécies etc.
    Mas estas pessoas precisam entender que os parques não são deles, mas de toda a sociedade, inclusive deles, mas também de pessoas comuns a quem não podemos negar o direito de experimentar essas maravilhas.

  6. Jaqueline Oliveira

    Eu não fiz o Caratuva, mas fiz vários picos e montanhas mais altas na Europa e da maneira confortável como o André descreve. Não vi destruição, lixo, desrespeito à flora e fauna, muito menos consequências desastrosas como o Sr. Cesar alega. Vi pessoas trabalhando, locais acolhedores com infraestrutura inteligente. Me senti privilegiada por ter a oportunidade de admirar a natureza de um local praticamente inatingível. Outro ponto de vista: destruição da mata para construção de ferrovias e transporte de alimentos para porcos na China pode. Para pessoas não. Pensemos todos novamente sobre isso, ok?

  7. André, fiz o Caratuva/Paraná há mais de 60 anos e foi uma grande aventura para um jovem de 20 anos. Entendo teus argumentos pela construção de um teleférico no pico Paraná mas a ideia não me agrada pelas consequências desastrosas para o meio ambiente. Pense novamente, sim?

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