Só li recentemente “Na natureza selvagem”, de Jon Krakauer. A biografia, um best-seller mundial, é de 1996. E a adaptação para o cinema veio em 2007, dirigida por Sean Penn. Como eu não havia gostado muito do filme, não me interessei de imediato pelo livro, mesmo tendo sido escrito por Krakauer, um dos meus autores favoritos de não ficção.
Este é mais um caso em que o livro é melhor do que o filme. Para quem não sabe (atenção, contém spoilers), “Na natureza selvagem” conta a história real de Christopher McCandless, o jovem que atravessou a América do Norte até o Alasca no início dos anos 90. De origem abastada, McCandless abandonou a família e os privilégios financeiros logo depois de formado. Viajou até o Alasca pedindo carona e fazendo bicos em diversos estados americanos.
Depois de dois anos sem dar notícias para a família, McCandless foi encontrado morto dentro de um ônibus abandonado na Stampede Trail, uma área remota do Alasca, próxima do Parque Nacional Denali. Acredita-se que ele tenha ficado sozinho durante 113 dias na região e que, possivelmente, morreu porque comeu em excesso uma planta que não sabia que era venenosa. Tinha 24 anos.
McCandless era um revoltado contra o que considerava a hipocrisia e as injustiças do mundo – e nisto incluiu a sua própria família. Era carismático, entusiasmado pelas aventuras e fazia amizades com facilidade. Concluiu os estudos com brilhantismo, gostava de literatura e tinha especial apreço pelos escritores que de algum modo viveram à margem do establishment, como Tolstói. Krakauer entrevistou aqueles que conheceram McCandless nos dois anos de sua jornada até a morte e é notável como ele conseguia criar vínculos fortes com as pessoas mesmo com poucos dias de convívio.
Originalmente, antes de se tornar um livro, a história de McCandless foi contada em um artigo, também escrito por Krakauer, para a revista Outside. O texto teve uma grande repercussão entre os leitores e uma enxurrada de cartas chegou à redação. Krakauer conta que a reação era muito dividida. Havia aqueles que ficaram consternados com a história de McCandless e sua busca por um sentido na vida. E havia outros que achavam que era somente mais um jovem narcísico, que morreu por ter uma postura arrogante e irresponsável diante de tantos privilégios.
Não julgo McCandless – cada um faz com a sua vida o que bem entende. O que me deixa intrigado com sua jornada é de outra natureza. Por que a história de um jovem revoltado com o mundo despertou tanta atenção? Para além do trágico fim, tenho algumas hipóteses, mas antes quero comentar rapidamente o livro que estou lendo agora, “A invenção da natureza”, a extraordinária biografia de Alexander Von Humboldt, escrita pela historiadora alemã-britânica Andrea Wulf. Foi eleito o melhor livro de não ficção de 2015 pelo New York Times, The Guardian e Time – é daquelas leituras impossíveis de parar, recomendo muito.
Humboldt foi brilhante em tantas áreas diferentes que é difícil resumir o que ele fazia. Durante a virada do século XVIII para o XIX, ele foi geógrafo, naturalista e explorador. Fundou campos novos do conhecimento, como a biogeografia, a sismologia e a geofísica. Conviveu com a nata do romantismo alemão – incluindo uma grande amizade com Goethe e Schiller.
Humboldt foi um dos principais responsáveis de uma visão holística da natureza e demonstrou que as ações humanas podem ter efeitos devastadores no meio ambiente – por isso, há quem o considere como o primeiro ambientalista. Seu trabalho científico influenciou gente graúda, incluindo Charles Darwin. Na política, Humboldt era um apaixonado pelos ideais de igualdade, fraternidade e liberdade da Revolução Francesa. Horrorizou-se com a escravidão – segundo ele, o pior dos males de seu tempo – e era um abolicionista convicto em uma época que esta não era a norma de sua classe social. Segundo Andrea Wulf, em vida, só Napoleão tinha tanta popularidade quanto Humboldt.
Curiosamente, há algumas semelhanças entre Humboldt e McCandless. Humboldt também vinha de uma condição financeira muito confortável e, assim como McCandless, não se entendia com a educação rígida que recebeu dos pais. Ambos tinham uma gana para viajar pelo mundo, um gosto refinado para as artes e o desejo de dominar o desconhecido. Eram também apaixonados por jornadas físicas extenuantes e radicais, como subir montanhas ou enfrentar as temperaturas mais extremadas. Mas as semelhanças terminam por aí.
E aqui vem uma hipótese do fascínio do nosso tempo com McCandless. Uma vida diferente do convencional, assumindo riscos, se tornou algo tão raro que mesmo conquistas acanhadas quanto as de McCandless acabam chamando a atenção. Duvido muito que a mesma aventura, em qualquer outro momento da história, tivesse a mesma repercussão.
O mundo ficou decadente? Difícil responder – o conceito de decadência é uma tentativa meio absurda de simplificar o que é complexo. Há gente nova fazendo viagens não convencionais e assumindo riscos – para trazer um exemplo recente, a coragem de Vini Jr nos dá esperança para que o mundo seja outro. Mas, na média, suspeito que as aventuras do nosso tempo sejam mais modestas.

