Prezado Sr Dr Engenheiro Chambel Santos,
Já agora sem os atravancos e as constrições próprias do dia, posso falar-lhe com o vagar que o tema exige.
Mas antes, sinto-me na obrigação de prestar um esclarecimento, para que sobre nosso relacionamento, sempre pautado pelo máximo respeito, não paire a sombra da desconfiança. Talvez tenha-lhe soado estranho estar eu, um engenheiro, postado diante do abdome nu de um desembargador – e isso às três da tarde, um horário sabidamente inadequado para quaisquer comércios de natureza sensual. Devo dizer-lhe que esses congressos da carne aos quais porventura sua mente o tenha remetido, só os pratico com minha senhora, no recôndito do lar, e tudo de acordo com os preceitos da santa bíblia.
Aquela circunstância, o homem ali estendido ao natural, é derivada da minha especialidade, que, sei, era-lhe desconhecida, mas agora não mais: estudei, no correr dos 80, Engenharia Biofuncional, com ênfase em Hidráulica dos Fluidos Baixos, na Universidade Católica de Varsóvia (isso antes de os cotistas da teologia da libertação tomarem a maior parte das vagas e obrigarem os católicos verdadeiros a recorrer ao papa e acontecer tudo aquilo que a imprensa noticiou à exaustão e sobre o que não me quero alongar para não rebentar outra vez minha úlcera).
Bem, agora ao ponto, e de forma muito sucinta: o negócio que lhe proponho envolve o ununênio, aquele elemento químico que nem os japoneses conseguiram desenvolver ainda, e vísceras de desembargador. Há riscos, claro, pois há alguma ilegalidade no processo. Podemos sair com o cu mais cheio de dinheiro que o Jeff Bezos antes do divórcio ou pegar prisão perpétua nalgum buraco fedorento da América Central. Peço que avalie com atenção e responda até amanhã ao entardecer.
Atenciosamente,
Tungzténio P. Garcia
Engenheiro Biofuncional

eÇelentíssimo senhor dom arquibiodr & assim consultor geral
Maurício
d’Popiga,
muito obrigado por esta sua carta, à qual me foi, mais uma vez, dada a honra de responder em nome e representação de sua eÇelência o conselheiro embaixador, acreditado em todo o lado, senhor dom chambel d’santos
estou certo de que vóÇa eÇelência estará ciente que
no decorrer da primeira para
a segunda década do século passado o senhor freud no seu ensaio “ pulsões, ui-ui e destinos da pulsão “ coloca a tónica, justamente, no amor, dividindo-o, assim, em quatro pares de distintas, mui eróticas, partes:
1, amor, barra, ódio;
2, ódio, barra, amor;
3, amor,barra, indiferença;
4, indiferença, barra, amor;
chamou-lhes, e veja bem aos anos kiste já foi, pulsões delirante-eróticomaníacas
e em que às perguntas do ser a si próprio:
será que ela me ama?
será que ela me odeia?
será que lhe sou indiferente?
como resposta
se sucediam as mais desvairadas e contínuas sessões auto-masturbativas solitárias que deixavam o pobre infeliz prostrado e sem conteúdo profético-religioso, em razão desse enorme investimento artesanal, se assim me posso exprimir
ora, e é aqui que o aspecto central desta manifestação entronca, assim claramente, com as referências que vóÇa eÇelência, faz, sobretudo, às regras do asseio doméstico e da moral a que todos nós, afinal, e no ocidente, estamos subordinados. e bem, devo acrescentar
há um outro tópico da sua carta, e cito-o:
‘Há riscos, claro, pois há alguma ilegalidade no processo.’
que me remeteu para, quiçá, outra nova dimensão e que, desde já, peço descurpa se, assim já a seguir, o meu retorquir-lhe não tiver a tanta sua elevação humanisto-espiritual
é o seguinte:
de facto a vida das peÇôas humanas são o valor supremo das sociedades civilizadas
e, claro está, a pena de morte é um crime.
por outro lado, não é aceitável que em pleno século vinte um
um químico preocupado com a ciência e a plena satisfação do mercado, ao desenvolver o 119,5 póÇa ser condenado à morte. pior ainda, naturalmente, esteja ele assim no decorrer do normal horário de trabalho. é um absurdo horrível e desumano
e embora saibamos que jamais um processo criminal desta natureza seja justo, equitativo, imparcial e assim isento de impostos
nos termos da declaração universal dos direitos das peÇôas humanas
( e neste particular aspecto, solicito, e desde já agradecemos, o douto parecer do eÇelentíssimo senhor Dom
Luis Carvalho
sobre estas duas pertinentes questões:
a) prukê tanta celeuma com o 119,5 da tabela periódica?
b) prukê a sua criminalização? )
pruke, e sou sincero, não existirá verdadeiro direito de defesa, quando uma peÇôa humana é assim presa, julgada, condenada e executada de maneira tão bárbara
e, porra.
ó descurpe.
descurpe, o que eu queria dizer era que mui longa vai a missiva, eÇelentíssimo senhor dom arquibiodr & assim consultor geral
Maurício
d’Popiga
e afinal, disse porra.
não devia. descurpe, novamente
significa que, provavelmente, com este porra o melindrei duplamente:
primeiro pruke porra, não é coisa que se diga, sobretudo, se assim por escrito;
segundo, pruke
tamém não há paciência para uma carta assim tão extensa
né?
que, ao menos, tenha conteúdo e corresponda ele ao desiderato de vóÇa eÇelência e da empresa que se ensaia levar a cabo
pois só assim me considerarei a salvo de continuar a merecer a confiança de dom d’popiga e de dom d’santos
e do que
em nome dele, de dom d’santos, e eu meu próprio nome lhe apresentamos os nóÇos melhores cumprimentos e ficaremos a aguardar as suas breves notícias
cd’t