Curitiba não tem Carnaval!

Músicos e foliões organizam blocos e cortejos que a cada ano atraem mais pessoas no pré-carnaval, desmentindo o estereótipo criado sobre a cidade

Esta frase é repetida não apenas pelo Brasil afora, mas inclusive pelos próprios curitibanos, decretando que a capital paranaense não é palco da festa mais popular do Brasil. Mas nas últimas duas décadas músicos e foliões organizam blocos e cortejos que a cada ano atraem mais pessoas no pré-carnaval, tomando as ruas do Largo da Ordem em janeiro e fevereiro, num movimento de resistência da cultura popular em nossa cidade, se colocando como verdadeiros militantes do carnaval. Além dos pioneiros “Garibaldis e Sacis”, muitos outros se somaram diversificando na composição e temática dos blocos, o feminista “Ela pode ela vai”, o lateral “Siribloco”, o burlesco “As cachorras”, o roqueiro “Caiu no cavalo babão”, dentre tantos outros.

Enquanto isso, a atual gestão da prefeitura, sob a batuta do “curitibaníssimo” Rafael Greca, além de não implementar ações de apoio aos blocos, ainda mobiliza as forças de segurança pública contra os grupos que atentam contra a “paz e o sossego” das noites do centro histórico, mostrando que o caráter excludente do planejamento urbano da capital não possui apenas dimensões econômica e política, mas também cultural. O planejamento urbano não se dá apenas por meio daquilo que se promove a partir de políticas públicas e investimentos, mas também por meio da “não promoção” seletiva e proposital, negando a possibilidade de existência.

A quantidade de pessoas brincando nas ruas do nosso pré-carnaval demanda uma estrutura que o poder público não parece nem um pouco disposto a fornecer, a começar por banheiros químicos, além da segurança para que a população possa brincar sem ser roubada ou atropelada por carros e ônibus.

Ao invés de fechar as ruas e desviar o trânsito para permitir a livre circulação de músicos e foliões que acompanham os blocos, a prefeitura mobilizou as forças policiais para assegurarem o “direito” dos carros trafegarem na região do Largo. Não medindo esforços para tal, se tornou comum ver policiais andarem no meio dos carros apontando suas armas para as pessoas nas calçadas, numa demonstração de truculência e autoritarismo. Não vimos os mesmos agentes patrulhando a pé pelos trajetos dos blocos, deixando o território livre para ação de batedores de carteira. A falta de iluminação em lugares como as ruínas de São Francisco foi outro fator que contribuiu bastante para a insegurança e impediu os blocos de irem até mais tarde nas noites.

Falar aqui apenas de medidas pontuais, que permitiriam ao pré-carnaval acontecer sob melhores condições, não quer dizer que a prefeitura estaria incluindo as festividades como objeto do planejamento urbano. Para isto seria necessário ir além, pensar o melhor trajeto para os blocos percorrerem, a logística necessária, a participação dos foliões e comerciantes em reuniões preparatórias, etc. Uma alternativa, por exemplo, seria transferir os blocos para o calçadão da XV, que precisa ser revalorizado (assunto para outra coluna). Lembrando que em administrações passadas o local reservado para os blocos era a Marechal Deodoro, recebendo praticamente a mesma estrutura dos desfiles das escolas de samba.

Desde a primeira saída dos “Garibaldis e Sacis” Curitiba perdeu a oportunidade de consolidar seu pré-carnaval como atração cultural, enquanto várias cidades que começaram depois e a ocuparem as ruas na mesma época atraindo turistas, e não falo apenas do gigantesco carnaval de rua de São Paulo, vide Belo Horizonte e Florianópolis. Mas podemos dizer que não se trata de uma falta de visão, mas de uma aversão ao que é popular, ao que vai contra a imagem tradicional de Curitiba. Uma demonstração de um planejamento excludente, em que a eliminação da cultura popular é mais importante até do que atrair investimentos e turistas para a cidade nesse período do ano. Rafael Greca e os seus insistem que a cidade deve continuar a mesma, não aceitam o novo, e mais triste de tudo, não aceitam a alegria tomando conta de nossas ruas.

2 comentários em “Curitiba não tem Carnaval!”

  1. Nosso carnaval precisa deixar de ser só “pré” e isso passa por termos um lugar designado para esta atividade cultural, um sambódromo curitibano!

  2. Sérgio Ubiratã Alves de Freitas

    Luiz,
    Gratidão pela matéria.
    Carnaval é vida.
    E como disse minha conterrânea Flaira Ferro” uma cidade triste é fácil de ser controlada, uma cidade triste é fácil de ser dominada. Evoé o Carnaval, o Garibaldis e Sacis com 24 anos de atividade e todos os resistentes que fazem o nosso pré e carnaval.

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