O mês de abril tem sido intenso para os fãs da cultura pop. Primeiro, porque já está no ar a temporada final de Game of Thrones; segundo, porque na próxima quinta estreia o “Último Ato” dos Vingadores, em Ultimato. Mas o que há de comum entre essas duas grandes produções? Além de conquistarem fãs pelo mundo todo, mostram a competência do trabalho de dois compositores ao longo de quase uma década. Alan Silvestri, 69 anos, é o autor do tema musical dos Vingadores” e Ramin Djawadi, 44 anos, assina a trilha sonora da saga de Westeros. O filme de estreia dos super-heróis da Marvel foi lançado em 2012 e a temporada inaugural de GOT foi ao ar em 2011.
Vamos falar um pouco dos compositores. Silvestri está entre os grandes nesse assunto e certamente um dos seus trabalhos mais marcantes é De Volta para o Futuro (1985), que inclusive me obriga a fazer uma confissão: até hoje cantarolo esse tema quando preciso estabelecer um intervalo de quarta aumentada. Sua mente criativa também aparece em outros clássicos, como o Náufrago (2000), Forrest Gump (1994), Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), O Predador (1987), além de muitos temas para tevê, sendo talvez o mais marcante o do Esquadrão Classe A, série dos anos 1980 que virou longa em 2010. Definitivamente suas composições fazem parte do nosso imaginário e ajudaram a modelar os ouvidos de várias gerações.

Agora uma coisa precisa ser dita: muitas vezes a obra de Silvestri é confundida com a de John Williams, 87 anos, autor de outros temas inesquecíveis, como Star Wars, ET e o Hedwig’s Theme, que é o título do tema original de Harry Potter. Por quê? Eu acredito que em primeiro lugar por falta de atenção do público aos créditos iniciais e finais dos filmes. Mas em segundo lugar porque há muitas semelhanças no uso da orquestra, como a preferência por grandes sequências melódicas nas cordas, o uso grandioso dos metais, além dos encadeamentos harmônicos que conduzem, entre outros destinos, ao modo Lídio (proporcionando a quarta aumentada que eu falei acima).
As temáticas dos filmes também ajudam nisso. Em geral, os temas musicais de Silvestri e Williams são destinados a personagens ou grupos que indubitavelmente são mocinhos. O mesmo é difícil de se afirmar com os personagens de Game of Thrones, uma história cheia de reviravoltas e transformações. Há personagens que eram vilões nas primeiras temporadas e que atualmente ganham a torcida do público para sobreviverem. Jaime Lannister (Nikolaj Coster Waldau), por exemplo, chegou a jogar uma criança da janela e agora é um cavaleiro honrado; Tormund Giantsbane (Kristofer Hivju) passou de um selvagem sanguinolento para um cara engraçado; Sandor “Cão de Caça” Clegane (Rory McCann) foi de assassino sem escrúpulos a um sujeito preocupado com o bem comum.

Djawadi estabelece essa atmosfera complexa logo no tema de abertura. Por meio de uma melodia construída sobre um compasso ternário, ele faz uma alternância intrigante entre a terça menor e a maior, produzindo uma constante mudança entre os modos Menor e Maior. Para quem não está acostumado a essa linguagem, em geral o Modo Menor é associado a coisas mais “tristes” e o Maior a coisas “alegres”. Essa é uma definição simplista demais, por assim dizer, mas serve para demonstrar esse balanço de humores presente na trilha. Nessa dicotomia entre maldosos e bondosos só estão bem definidos mesmo como herói e vilã as personagens Jon Snow (Kit Harington) e Cersei Lannister (Lena Headey). Aliás, essa última ganhou um tema musical à altura de sua maldade: “Light of the Seven”, do episódio final da sexta temporada, é algo impressionante e profundo, intimamente conectado à personagem e seu arco na história. Uma das mais belas obras musicais de Djawadi.
No mais é só escolher entre pipoca doce e salgada, conforme o humor, e curtir essas obras musicais brilhantes.
Para ir além
The Avengers
Game of Thrones
Back to the Future
Light of the Seven
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