O genocídio brasileiro e nossa elite colaboracionista

A pandemia nada tem de democrática e igualitária, porque contém um corte de classe. O governo Bolsonaro deu uma contribuição decisiva a esse quadro desolador, com o apoio ou a conivência silenciosa de parte de nossa elite econômica

Na noite de 20 de fevereiro de 1933, um grupo de 24 empresários alemães se sentou à mesa com a elite dirigente do Partido Nazista – estavam presente, entre outros, Hermann Goering, presidente do Reichstag, e o próprio Adolf Hitler, nomeado chanceler pouco menos de um mês antes –, para tratar do apoio financeiro às pretensões eleitorais do NSDAP, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.

A escalada nazista já iniciara alguns anos antes. Mas uma vitória nas eleições de 5 de março daquele ano era fundamental à consolidação das pretensões políticas de Hitler e seus asseclas. O dinheiro da elite industrial e financista, naquele momento, não apenas cimentaria a ascensão ao poder, como selaria uma aliança mais duradoura entre o partido, empresários e banqueiros.

Em seu discurso, Hitler não precisou de muito para convencer os convivas, nomes à frente de empresas como Allianz, BASF, Bayer e Siemens, a abrirem suas carteiras sem nenhum tipo de relutância moral, mandando às favas os escrúpulos. Na descrição do escritor francês Éric Vuillard em A Ordem do Dia: “era preciso acabar com um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer em sua empresa”.

É especificamente essa cena, minuciosamente narrada nos primeiros capítulos do romance, que me ocorreu quando li a manchete da Folha de S.Paulo do último dia 7 de abril: “Bolsonaro é ovacionado em jantar de reaproximação com empresários”.

Adolf Hitler é saldado por seguidores.

Como no convescote alemão, desse participaram alguns dos principais representes do PIB. Lá estavam banqueiros – Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco; David Safra, do banco Safra; e André Esteves, do BTG Pactual (que já teve entre seus sócios o hoje ministro da Economia, Paulo Guedes) –; executivos de empresas de comunicação como a Jovem Pan, SBT e CNN; e alguns nomes associados a Bolsonaro e ao bolsonarismo desde a campanha de 2018, como Alberto Saraiva, do Habib’s; e Flávio Rocha, da Riachuelo.

Da parte do governo, além do presidente e do ministro da Economia, Marcelo Queiroga, da Saúde, e o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, entre outros. Ironicamente, nomes conhecidos pela sua adesão incondicional ao bolsonarismo, como Luciano Hang, da Havan, ficaram de fora do petit comité: a assessoria presidencial não queria passar a impressão de que Bolsonaro se cerca apenas de “bolsonaristas considerados mais radicais”.

Tragédia humanitária

A essas alturas, creio, já está claro a parte das leitoras e leitores minha intenção. Mas para que não reste sombra de dúvida: sim, estou traçando um paralelo entre o apoio dos empresários alemães a Hitler, consolidado no fatídico jantar de fevereiro de 1933, e a “reaproximação” de Bolsonaro com os empresários brasileiros. Alguns dirão que exagero brandindo pelo menos dois argumentos.

O primeiro, é que o jantar foi organizado, em parte, como uma resposta a uma carta, assinada por cerca de 500 economistas, banqueiros e empresários, no final de março, pedindo do governo investimentos em medidas de combate à pandemia, como o uso de máscaras, o distanciamento social e a agilidade na vacinação. O segundo é de que, diferente da Alemanha, não estamos em uma ditadura totalitária, tampouco na antessala de um genocídio.

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr.

A carta, que precisou esperar os 300 mil cadáveres para ser, finalmente, escrita, não trazia nenhuma novidade, nem mesmo quando tratava do que parecia ser sua principal preocupação: estamos mergulhados em uma tragédia humanitária sem precedentes em nossa história recente, e mesmo a economia só terá alguma chance de recuperação depois de sairmos dela.

Não menos importante: o nome do principal responsável pela matança, Jair Bolsonaro, não é citado uma única vez em todo o manifesto. A impressão é de que, por via das dúvidas e com a eleição de 2022 se avizinhando, seus signatários tenham preferido preservá-lo, e se preservar, caso tenham de justificar, novamente, sua “escolha difícil” em mais um pleito “polarizado”.

Autoritarismo e genocídio

O segundo argumento beira o cinismo. Não vivemos uma experiência totalitária, certamente, mas também não podemos chamar isso que aí está de democracia. E a essas alturas, ninguém mais tem o direito de ignorar as pretensões autoritárias do governo. Bolsonaro, aliás, nunca escondeu suas intenções golpistas, nem durante a campanha, quando parte dos que hoje o censuram, mesmo sem o citar, não hesitaram em lhe franquear recursos e apoio.

O “clima de otimismo” do jantar de 7 de abril é ainda mais indignante, porque soa como um escárnio daquela parcela da elite que decidiu marchar com Bolsonaro quando nos aproximamos dos 400 mil mortos – mais, muito mais que a meta de 30 mil assassinatos que Bolsonaro pretendia para a ditadura.

Nós não estamos na antessala de um genocídio, como estavam os 24 comensais do jantar com Hitler; nós estamos em um genocídio, como tentei demonstrar em minha coluna de 18 de março, aqui no Plural.  

Fila de ambulâncias com pacientes com Covid. Foto: Geraldo Bubniak/AEN.

Se a pandemia e seus efeitos nada têm de democrático e igualitário, porque contém um corte de classe e, como parte dele, étnico e de gênero, o governo Bolsonaro deu uma contribuição decisiva a esse quadro desolador. Não apenas porque, ao fazer tudo o que estava ao seu alcance para retardar a vacinação e insistir em boicotar, deliberadamente, medidas de prevenção, adiou por meses a retomada da “normalidade”, seja lá o que isso signifique hoje.

Mas também porque todas as ações de emergência adotadas ou prometidas até aqui, colaboram para aprofundar o abismo da nossa desigualdade, de um lado precarizando condições salariais e de trabalho e, de outro, mantendo intocados os privilégios dos setores da elite que o apoiam – entre eles, financistas, banqueiros, grandes empresários e liberais, que com ele dividiram a mesa ou recusam denunciá-lo como o principal responsável pela nossa tragédia.

O colaboracionismo da fina-flor da economia alemã custou milhões de vidas. Os ingênuos dirão que não chegaremos a tanto, mas estão enganados. Entre vidas efetivamente perdidas, e aquelas de algum modo vulnerabilizadas pela gestão criminosa da pandemia, já podemos chamar nossa catástrofe pelo que ela é e pelo nome que fez por merecer: um genocídio. Financiado, como na Alemanha nazista, pelo dinheiro e a indiferença de uma elite colaboracionista.


Para ir além

Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem
O não fazer de todo dia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Plural se reserva o direito de não publicar comentários de baixo calão, que agridam a honra das pessoas ou que não respeitem níveis mínimos de civilidade. Os comentários são moderados por pessoas e não são publicados imediatamente.

Rolar para cima