Curitiba tem o “germe do fascismo”? Vem com a gente ver a vacina

Os curitibanos não deviam estar irritados com Gilmar Mendes, mas sim com Deltan e Moro que ajudaram a consolidar essa fama da cidade

O pessoal do meio político ficou indignado com uma frase dita por Gilmar Mendes no Roda Viva desta segunda (8). Segundo o ministro do STF, “Curitiba tem o germe do fascismo”. Claro que Ratinho, Greca, Moro e Dallagnol estrilaram. No caso dos dois últimos pelo menos, deu pra ver que é porque a carapuça serviu – porque no fim das contas era deles que estavam falando.

Importante antes de mais nada esclarecer uma coisa: Gilmar estava falando não de “Curitiba” a cidade, mas sim da tal “República de Curitiba”. Mais especificamente, no contexto, dava para entender que ele estava falando da Força-Tarefa da Lava Jato e do juiz Moro, que mandaram às favas as leis e os pudores em nome da condenação de Lula – um ativo que lhes rendeu assentos no Congresso Nacional, entre outras coisas.

Gilmar Mendes estava dizendo, e com razão, que o pessoal jogou fora o Código de Processo Penal e começou a atuar numa espécie de Estado paralelo, não só acabando com uma operação que no início fez coisas interessantes como jogando o país no colo de um protofascista, que só se elegeu graças ao discurso de criminalização da política e da demonização da esquerda.

Ou seja: ao invés de Moro e Deltan reclamarem de Gilmar Mendes, nós, os curitibanos, é que deveríamos estar putos com o pessoal da Lava Jato, que ajudou a transformar nossa cidade em sinônimo de coisas abjetas.

Claro, não foi só a Lava Jato. Curitiba de fato tem um histórico político à direita que muitas vezes beira o assustador – foi a única cidade a escolher Plínio Salgado, o Integralista, como presidenciável de preferência, por exemplo. E em tempos mais recentes, tem conseguido eleger quase sempre figuras horripilantes, como defensores de um armamentismo sem limites e gente que acha que a PM está mesmo é pra promover uma limpeza (étnica?) nas periferias.

Porém… Curitiba não é só os Deltans e os Moros, não é só um amontoado de gente votando contra igualdade de salários, muito menos uma cidade que só tenha gente com preconceito de classe ou cor. Pelo contrário: a cada dia com mais migrantes, a cidade tem se aberto para o mundo e tem se tornado mais diversa, mais pulsante, mais plural.

A cidade que criou a primeira universidade do país, que teve o primeiro comício das Diretas, que tem alguns dos movimentos sociais e ongs mais bacanas do país, que tem iniciativas vibrantes contra a ditadura e contra a opressão, a cidade que pulsa contra a truculência do Estado e que canta com artistas que mostram a nossa diversidade – esta cidade sim é a nossa Curitiba.

E a melhor vacina contra o germe do fascismo é essa: uma cidade cheia de gente capaz de se unir contra os que querem implantar um regime de força ou que defendem ideologias em que uns são vistos como melhores do que outros. Se os políticos pararem de se importar com as críticas e apoiarem mais projetos interessantes, a cidade jamais passará novamente a vergonha de se tornar símbolo do fascismo à brasileira.

Este texto foi inspirado pela Rosiane, a mais plural das jornalistas desta cidade.

8 comentários em “Curitiba tem o “germe do fascismo”? Vem com a gente ver a vacina”

  1. Renato Mocellin

    Texto historicamente e sociologicamente muito bem fundamentado. Parabéns Rogério! Na verdade. Curitiba tem um viés político conservador, contudo, sempre tivemos pessoas progressistas como o jurista Vieira Neto que era comunista e foi eleito deputado estadual, sem esquecer a primeira mulher eleita vereadora -Maria Olímpia Carneiro Moche – que também era marxista. Por outro lado proliferaram liberais, sociais-democratas, democratas-cristãos, oportunistas, neofascistas, falsos moralistas, escroques…Bons e maus políticos. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra.

  2. Minha família tá aqui em Curitiba desde os anos 1800 e poucos e ninguém aqui ficou ofendido com o comentário do Gilmar Mendes. Minha família viu a bandeira nazista pendurada no edifício Garcez e dentro do Clube Curitibano. Também viu o maior desfile nazista fora da Alemanha na década de 30.
    A gente viu o que aconteceu com o BANESTADO, com a perseguição de Renato Freitas, com a Lava Jata e com a privatização da COPEL – que é o golpe BANESTADO 2.0.

  3. A manifestação mimizenta da Câmara dos digníssimos vereadores de Curitiba já confirma a verdade das palavras de Gilmar Mendes. Aquele lugar só sai no noticiário nacional por causa das vergonhas que perpetra.

  4. Curitiba e a região sul em geral, está com a imagem totalmente desgastada, com várias atitudes de nossos representantes políticos e suas homenagem a Olavo de Carvalho, nos demais meios como o futebolístico como os casos recorrentes de racismos de uns aristocratas da baixada. A voz plural que existe, resiste a duras penas para demostrar uma imagem melhor da nossa região.

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