Educação ambiental é a garantia de uma geração mais consciente

Escolas e ongs defendem inserção de alunos em áreas preservadas para ensinar a importância de nossas escolhas

É cada vez mais comum que crianças e adolescentes passem uma bela fatia de suas vidas dentro de apartamentos, condomínios e casas – e não estamos nem falando do período da pandemia, quando isso era uma estratégia de sobrevivência. Se por um lado esses ambientes podem ser protegidos e acolhedores, ao mesmo tempo eles nos afastam de um elemento fundamental da vida humana: o contato com a natureza.

Por isso, o ideal é que as novas gerações tenham já nos primeiros anos uma aproximação com o mundo natural – e isso pode ser feito pelos pais, mas também pela escola, que tem a capacidade de oferecer uma educação ambiental, levando mais a fundo os conceitos da Biologia e de outras ciências durante esses momentos de imersão na natureza.

Há vários ganhos tanto para o indivíduo quanto para a sociedade neste movimento. Para a coletividade, a importância parece evidente: num momento em que o planeta passa por uma crise climática sem precedentes e o meio ambiente sofre uma devastação perigosa, ter o cuidado de educar nossos filhos para um futuro sustentável é obrigação fundamental. E o Brasil tem uma situação privilegiada nesse sentido.

Atividade do projeto de educação para a conservação da SPVS. Foto: Divulgação

“Conhecer e respeitar a natureza não é apenas uma opção de lazer. Representa um modo de vida em busca de um desenvolvimento que não extrapole os seus limites”, diz Clóvis Borges, um dos fundadores da ong SPVS, uma das mais importantes entidades ambientais do país e que, dentre outros programas, trabalha com educação para a conservação.

“Vivemos num país riquíssimo em paisagens naturais e que é incompáravel em termos de biodiversidade. Estar em contato direto com áreas bem conservadas, desfrutar de sua beleza e compreender sua importância tem uma relação direta com fatores como saúde e bem-estar”, afirma ele, ressaltando também os benefícios para o indivíduo.

Para as meninas e meninos que mal descem para o parquinho do prédio, diz ele, isso é ainda mais essencial. “Cidadãos de áreas urbanas e rurais precisam se reaproximar da natureza, destruída de forma excessiva e irresponsável nas últimas décadas. São as áreas naturais bem conservadas as geradoras de bem-estar e de serviços dos quais todos dependemos.”

Centro de Educação Ambiental

No Colégio Medianeira, de Curitiba, além de conviverem com uma área grande de natureza no dia a dia (que conta até com um exemplar de pau-brasil), os alunos fazem visitas ocasionais ao Centro de Educação Ambiental, uma chácara em Piraquara onde é possível viver dentro de um pedaço preservado de Mata Atlântica.

A chácara, compara nos anos 1950, era usada para atividades de socialização e retiros espirituais. Mas há algum tempo, o Colégio decidiu que a área, de 220 hectares, era perfeita para educar ambientalmente os alunos. A 30 quilômetros da cidade, a chácara do Morro do Bruninho se transformou numa reserva particular de preservação (RPPN, no nome técnico) virou um ponto de estudos biológicos e de conhecimento da natureza.

O nome, aliás, tem uma história engraçada. Diz a lenda que os alunos acharam que o morro parecia o formato da cabeça de um padre calvo que era muito simpático e se chamava Bruninho – e eles passaram a chamar o lugar de Morro de Bruninho como uma homenagem divertida. Pegou. E décadas depois o nome segue sendo esse.

“O morro tem mais de mil e cem metros de altura e tem uma diversidade incrível. Os alunos conhecem uma área de transição entre dois tipos de mata, veem animais que jamais veriam na cidade e tudo isso tem um impacto neles, mesmo nos mais novos”, afirma a bióloga Letícia Estela Cavichiolo Espindola, responsável pelo Centro de Educação Ambiental.

Alunos em atividade no Morro do Bruninho: contato com a mata preservada. Foto: Divulgação

Tudo é natureza

Letícia conta que primeiro os alunos percebem o que há de diferente em relação ao que eles conhecem. A água é mais límpida, gelada, transparente. Totalmente o oposto do Rio Belém, que corre ao lado do colégio em Curitiba. A mata, o voo das arapongas, tudo chama a atenção pelo ineditismo. Mas aí vem um outro fenômeno igualmente interessante: eles aprendem que “natureza” não significa só esse tipo de espaço distante e preservado.

Para a bióloga, essa é a beleza dos passeios: reintroduzir o ser humano na natureza semivirgem para que se possa perceber que nosso ambiente cotidiano também faz parte desse mesmo contexto. E para que os alunos se deem conta que a cidade onde vivemos é resultado de nossas escolhas, e de todas as pessoas que vivem nela. “Isso ajuda as crianças e os adolescentes a refletir sobre nossa relação com a natureza”, conta ela.

E embora as incursões à chácara sejam mais exuberantes, o dia a dia no colégio tem a mesma preocupação. Exemplos são as feiras de arrecadação de óleo de cozinha e de eletrônicos. “Eles pensam que trazer só uma garrafinha de óleo não faz diferença. Mas quando veem que todos juntos foi possível arrecadar milhares de litros, eles percebem que isso dependeu da participação de cada um. E isso que é interessante: fazer com que eles vejam que não se trata de aprender agora para fazer a diferença quando forem adultos – eles podem fazer a diferença desde já”, conclui Letícia.

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