A primeira vez que meu pai morreu foi em janeiro de 1971.
Nós vivíamos na casinha de madeira do Bom Retiro. Eu brincava de carrinho no milharal dos fundos ou por entre as altas ervas daninhas do quintal, em torno do poço que eu e meus irmãos estávamos proibidos de abrir (uma criança podia morrer lá dentro, dizia a mãe). Gostava de voar em círculos, me segurando nos tubos coloridos de PVC com miolo de concreto que sustentavam a pequena varanda da frente. E, como todos os outros garotos, corria pelas ruas de terra batida, de chinelos ou descalço, às vezes acompanhado de um velho pneu que descia as ladeiras ao meu lado, orientado pelas minhas mãos. Atirávamos em latas, passarinhos e postes com estilingues, jogávamos bolinha de gude e bete, usando tacos feitos de ripas. Minha irmãzinha aconselhava longamente as suas bonecas, servia-lhes refeições de folhas e ramos picados, enquanto a mãe vivia às voltas com roupas sujas, vassouras, panelas e baldes.
Eu tinha seis anos. Os dias eram longos e a noite caía subitamente, sem trazer ainda consigo o melancólico eufemismo da morte, que mais tarde emanaria dos crepúsculos.
Apesar de a mãe ser muito jovem para tanta atribulação, de meu pai quase nunca estar em casa, de sermos pobres e vivermos sem dinheiro para ir a lugar algum (ou por isso mesmo), a sensação que guardei de tudo é boa. Há um sol qualquer por dentro, cuja intensidade tenho dificuldade em resgatar, talvez por causa dos acontecimentos que vieram a seguir.
O pai era caixeiro-viajante, um bom vendedor, segundo me disseram. Mas não tolerava patrões. Eram todos burros e incompetentes, e o homenzinho, mais inteligente do que os chefes, só costumava ter na carteira um efêmero cartão de visitas. Mas, se o dinheiro era raro, seu ânimo não esmorecia. Às vezes dava um jeito de irmos para a praia nas kombis e fuscas das firmas provisórias, levando apenas um saco de pão, um cacho de banana e a alegria de sair de Curitiba, rumo ao horizonte maior do mar.
Certamente o sonho romântico da mãe, que ao fim da adolescência fugira de casa para viver com aquele homem bem mais velho, já havia se convertido em nervosismo e inquietação. Agora ela tinha trinta anos, quatro filhos e quase nenhum apoio para suportar a precariedade que a rondava e constringia. Em pouco mais de uma década a realidade havia esmagado as flores dos seus diários de menina. Mesmo assim, e apesar da aparente indolência juvenil, era uma mulher forte, protegia-nos a ponto de não sentirmos nenhuma ameaça. Mas então o destino lhe deu o golpe mais violento, aquele que a desnorteou de vez.
Tarde da noite, como aves de mau agouro, minhas tias bateram à nossa porta. Eram as irmãs de meu pai. Graves e compassivas, traziam a triste notícia de que ele havia morrido numa praia de Santa Catarina. Nós, os três mais novos, estávamos dormindo. Mas o irmão mais velho desabou, arrancando cabelos pela sala.
Confusamente, ao longo dos dias, fiquei sabendo que o pai tinha agido como um herói. Durante um almoço na praia, em que ele alguns amigos se fartavam de comer, duas primas foram arrastadas pelas águas. O pai, que era bom nadador, salvou as primas do afogamento, mas acabou engolindo muita água. A certa altura, a dentadura ficou presa em sua garganta e, já na areia, teve uma congestão.
No enterro, quis ficar na ponta dos pés para vê-lo no caixão, mas alguém me arrastou para a cozinha. Me deram alguma comida. Uma senhora muito gorda, com a boca cheia de bolo, pôs a mão em minha cabeça e disse “Ele foi para o céu”. A mãe confirmou depois que este tinha sido o último destino conhecido do caixeiro-viajante. A informação entrou fundo em minha mente, cavou recessos lá dentro como um inseto, de tal maneira que passei quarenta anos buscando inadvertidamente o meu pai pelas ruas. Eu o vi em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Natal, Paris, Buenos Aires… Vagava pelo mundo a sua existência vicária.
Se ele tinha ido para o céu, podia voltar, sussurrava vida afora o menino escondido dentro de mim.
A segunda vez que meu pai morreu foi numa conversa com o irmão mais velho. Ele havia lido algo que escrevi lá pelo ano 2000, um texto em que falava das primas que o pai havia salvado. “Elas estão vivas em algum lugar”, eu disse, “as primas dele, que também são primas nossas”. Meu irmão riu. “Primas”, naquele caso, não eram parentes. Eram “mulheres da vida”. Fiquei chocado. Meu herói se sujava subitamente, depois de tanto tempo reluzindo na memória. Resolvi ligar para minha mãe. Não mencionei as primas, mas perguntei-lhe se ela amava o velho. Quis saber isso porque coloquei também em suspeição a certeza que eu tinha de que ele fora o grande amor de sua vida. O sujeito instável mas empático e generoso até o fim, que habitava minhas lembranças, talvez fosse apenas uma construção infantil, jamais questionada pelo adulto (por algum motivo, eu jamais conversava sobre o velho com ninguém).
Minha mãe suspirou:
“Nem sei, não, acho que não, era tanta preocupação… Eu vivia aflita”, disse a voz cansada ao telefone.
Minha primeira reação foi de espanto. Mas, com o passar dos dias, um novo pai surgiu à minha frente, liberto das amarras da idealização. Andou diante de mim exalando o cheiro animal de uma criatura crivada de desejos. Compreendi que meu herói morria. O homem que se sacrificou pelos outros era ao mesmo tempo o vulgar comerciante de amores. Uma pessoa falível, complexa, viva, vinha agora ocupar o lugar da estátua que eu erguera em seu lugar.
A terceira que vez que meu pai morreu foi em Brasília, em 2014. Eu tinha cinquenta anos, trabalhava na capital. Precisei ir a um cartório para autenticar alguns documentos. Era na Asa Sul e estava cheio de gente. Peguei uma senha, fiquei à espera. Tentei ler um livro em pé, mas algo me inquietava. É que atrás do balcão de atendimento, em outra sala aos fundos, um sujeito de cabelos brancos me chamava a atenção. Estava muito distante, eu mal o via, mas pude ouvir a voz do menino escondido: “É ele”. Examinei o homem, que também me olhou, do fundo da sala e do tempo. Tive aquela certeza cega, tantas vezes provada, de que havia encontrado meu pai. Caminhei em sua direção e imediatamente compreendi o equívoco. Atrás do balcão não havia outra sala, havia um espelho. E aquele homem de cabelos brancos, tão familiar em sua decantada incompletude, era eu mesmo. Algo se quebrou no meu peito, estremeci, atravessado por lágrimas secas. O poço do quintal, o poço escuro que guardava os temíveis segredos dos meus dias de criança, fora aberto. Lá no fundo, vi meu rosto envelhecido: eu havia me transformado em meu pai. Era eu, agora, o legítimo legatário de sua vida.
E o velho, finalmente, podia morrer em paz.

