Por que não dizer “para que não se repita”

A ideia por trás da frase pode ser muito boa. Isso não significa que não haja problemas

Quando uma memória se institucionaliza, slogans e frases de efeito começam a acompanhar cerimônias, rituais e locais de memória. Um desses dizeres, muito comum quando falamos sobre o Holocausto, é o “lembrar para que não se repita”. A frase é utilizada usualmente por instituições e lideranças comunitárias judaicas, assim como por outras entidades e governos.

Por ocasião do Dia Internacional de Memória do Holocausto deste ano, em 27 de janeiro, essa frase foi mencionada desde a diretora-geral das Nações Unidas em Genebra Tatiana Valovaya até nas mídias sociais de clubes de futebol brasileiros como o Santos e o Grêmio. O mesmo imperativo de “lembrar para que não se repita” aparece também em referência a outros eventos trágicos, como a ditadura militar brasileira.

A ideia por trás da frase pode ser muito boa. Isso não significa, porém, que ao olharmos com maior profundidade para a construção de memórias, não devamos observar problemas nela e propor alternativas. Dizer “para que não se repita” pode ser equivocado e improdutivo.

Equivocado

A noção de que eventos passados podem se repetir se insere dentro de uma concepção específica de História. O historiador alemão Reinhart Koselleck aponta que, entre a Idade Média e o século XVIII, o passado era encarado como uma sucessão de eventos isolados uns dos outros. Olhar para eles serviria, sobretudo, à perspectiva da famosa frase do romano Cícero, Historia Magistra Vittae, ou seja, “história mestre da vida”.

Em outras palavras, a História serviria para colher situações e comportamentos exemplares do passado a seguir ou a não seguir. Numa visão de mundo que, além disso, se focava nos homens mais poderosos, estudava-se as grandes batalhas e decisões políticas do passado para auxiliar na tomada de decisões do presente, supondo que uma boa ou má decisão no passado também a seria no presente, pouco importando se tratarem de contextos totalmente distintos.

Somente dentro dessa visão, é possível falar em uma história que “se repete” ou até mesmo cíclica, constituída por fases que se renovam, tudo se passando sempre em um mesmo plano.

Porém, a partir do século XVIII e, definitivamente, no século XIX, essa visão de História entrou em profunda crise. As aceleradas transformações sociais do período demonstravam que o presente era sempre algo novo, e não a repetição de esquemas do passado. Hoje, podemos declarar como consensual que a história é, por definição, dinâmica. O futuro não é nem a continuidade de uma linha pré-determinada pelo passado e nem uma repetição, seja episódica ou cíclica, deste.

Afirmar, portanto, que o passado pode se repetir é uma afirmação conceitualmente equivocada. Embora seja possível práticas humanas continuarem ou voltarem a ocorrer, acontecimentos e processos históricos não se repetem.

Improdutivo

Para além de um retorno a uma concepção de História do século XVIII, dizer que o passado se repete (ou alertar para que tomemos cuidado para que ele não venha a se repetir) é improdutivo. Há dois grandes motivos para isso.

Primeiramente, a ideia de repetição espera que o evento em questão volte a ocorrer literalmente. No caso do Holocausto, repetição implicaria em campos de concentração, câmaras de gás, arames farpados, etc. E, como afirmado acima, o passado não se repete. Portanto, o alerta para uma possível repetição é, no fundo, imobilizante, pois nenhuma situação real jamais irá repetir. Assim, o alerta nunca se torna ação efetiva, pois “ainda não há seis milhões de mortos” ou “ainda não há câmaras de gás”.

Campo de concentração em Dachau

O segundo motivo é porque a ideia de “para que não se repita” direciona o alerta para o futuro e preserva o presente, pois “repetição” supõe que algo acontecia no passado e cessou de acontecer, para só depois voltar a ser registrado. Ou seja, “para que não se repita” teme que o Holocausto volte a ocorrer, ciente de que ele não está ocorrendo no presente. Assim, pode gerar um olhar preocupado, alerta ou vigilante para o futuro, mas ao mesmo tempo tranquilizador para o presente. A ação efetiva fica reservada para o futuro, ignorando os problemas do presente.

Há que se notar ainda que, por outro lado, tomar o presente como absolutamente distinto do passado é igualmente improdutivo. Nos primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial, prevalecia uma narrativa sobre Holocausto na qual o nazismo e seus crimes eram associados a uma barbárie superada pela “civilização”. Desta forma, por outros caminhos, também se interditavam as relações entre passado e presente.

Alternativas

O historiador alemão Jorn Rüsen aponta para quatro modalidades de “consciência histórica”, que é a forma como nos situamos no tempo, de um grau mais simples ao mais sofisticado. O primeiro tipo é a consciência histórica tradicional, na qual o presente é uma mera continuidade do passado, ou seja, não há dinâmica do tempo. A consciência histórica exemplar, a segunda modalidade, é característica do processo já descrito de tomar eventos passados isolados para tomar decisões no presente, supondo uma capacidade de repetição, ou seja, que é possível, a partir de exemplos, chegar a regras gerais de valor atemporal para orientar condutas. O terceiro tipo, consciência histórica crítica, por sua vez, enfatiza as rupturas entre o presente e o passado. Nela, o presente supera ou nega o passado – é o caso da narrativa hegemônica do pós-guerra. Esse é um passo crucial, mas, embora reais, as rupturas não dão conta de toda a dinâmica da ação humana no tempo.

A consciência histórica genética, aquela que para Rusen é a mais completa, incorpora os valores das formas anteriores e se caracteriza por observar as influências do passado no presente, ao mesmo tempo em que nota tratarem-se de tempos diferentes. Em outras palavras, admite que a dinamicidade do tempo permite continuidades e rupturas simultaneamente.

Em termos práticos, o que isso significa sobre a relação passado-presente na memória do Holocausto? Uma consciência histórica genética não procura repetições (e nem a superação do passado), mas – além das diferenças – continuidades e permanências. Falar em permanências, ao invés de repetições, pode parecer um deslocamento sutil, mas é uma diferença muito grande.

Primeiramente, enquanto acontecimentos históricos, por definição, não se repetem, os processos e circunstâncias que os possibilitaram podem não ter todos cessado de existir. Afinal, infelizmente, a derrota do nazismo não significou necessariamente a derrota dos processos sociais, ideias e paradigmas que o possibilitaram.

Em segundo lugar, o olhar para as permanências pode “resolver” as duas causas para a improdutividade do argumento da repetição. Afirmar a permanência de processos que possibilitaram o Holocausto não supõe que as consequências dessa combinação necessariamente estejam ou possa voltar a ocorrer, mas sim que um ou mais componentes que o geraram ainda se fazem presentes. O alerta deve ser menos para o resultado (o acontecimento histórico em si) e mais para as suas condições de possibilidade. A ideia de “continuidade” também não aguarda pelo futuro para demandar uma ação, pois não está afirmando que o passado trágico pode voltar a acontecer, mas sim que ele nunca parou de acontecer. O momento de mobilização não é um futuro hipotético a ser evitado, mas o presente que requer urgentemente ação.

Rituais, cerimônias e o senso comum provavelmente continuarão a falar “para que não se repita” – e muitas vezes com as melhores intenções. Mas, se queremos uma memória da Shoá comprometida com a transformação e a justiça social, alertemos não para uma hipotética repetição futura, mas para as concretas continuidades presentes.

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