A escritora Djaimilia Pereira de Almeida nasceu em Angola, mas mora em Portugal. No livro “Esse cabelo”, ela usa a vivência como mulher negra para dar vida à Mila.
A narrativa é escrita em primeira pessoa, o que cria um laço de amizade entre o leitor e a personagem. O texto, escrito na língua portuguesa, usa o padrão lusitano. Isso deixa a leitura um pouco truncada em alguns trechos por causa de palavras que têm significados diferentes no Brasil.
O livro é curto, tem apenas 104 páginas. Portanto, não há tempo para rodeios. Mila nos conduz aos salões de beleza e, nesse trajeto, também fala da migração de africanos para Portugal e a inexistente sensação de pertencimento ao lugar.
Identidade
Como grande parte das meninas negras, Mila (ou Djaimilia) luta para que o cabelo seja socialmente aceito. É curioso dizer que um cabelo precise ser “aceito pela sociedade”, mas é justamente essa a discussão que a autora conduz: o cabelo enquanto marcador de negritude.
“Então, Mila, quando é que tratas esse cabelo”, diz a avó branca da personagem. Tratar, aqui, poderia ser lido como domar, porque é justamente essa a impressão: uma menina tentando moldar o cabelo e, por meio dele, a própria identidade.
Mas o romance não é um drama. Embora aponte questões dolorosas, a autora escreve de forma leve e irônica a ponto de questionar se há realmente a necessidade de discorrer sobre o cabelo em um livro.
A partir dessa dúvida, tem início uma discussão geopolítica e feminista, e também um debate sobre pós-colonialismo e racismo, tudo de forma muito sensível.
Livro
“Esse Cabelo”, de Djaimilia Pereira de Almeida. Todavia, 104 páginas, R$ 57,90.


